Blog Rocha 100

“No princípio, criou Deus os céus e a Terra”. Ótima frase para um Blog que navegará 100 fronteiras: dos céus metafísicos à “rude matéria” terrestre. “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Pois, somos também deuses, e criadores. Podemos, principalmente, criar a nossa própria vida, com autonomia: isto se chama Liberdade. Vida e Liberdade são de Deus. Mas, quem é “Deus”? Devotos hebreus muito antigos, referiam-se a Ele apenas por perífrases de perífrases. Para Anselmo de Bec, Ele é “O Ser do qual não se pode pensar nada maior”. Rudolf Otto, diante da dificuldade de conceituá-Lo, o fez precisamente por essa dificuldade; chamou-O “das Ganz Andere” (o Totalmente Outro). Há um sem número de conceitos de Deus. Porém, o que mais soube ao meu coração foi este: “O bem que sentimos intimamente, que intuímos e que nos faz sofrer toda vez que nos afastamos dele”. É de uma jovem filósofa: Catarina Rochamonte.

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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Corrupto condenado, Zé Dirceu vai para a cadeia. O PT não precisa ir junto, nem cabe na cadeia

O Supremo Tribunal Federal condenou Zé Dirceu por crime de corrupção ativa. Pende ainda sobre o réu a acusação de "formação de quadrilha", sendo ele apontado pelo Ministério Público como o chefe da "sofisticada organização criminosa". Zé Dirceu, "primeiro-ministro" no primeiro Governo Lula, irá para a cadeia, havendo dúvida se cumprirá a pena em regime fechado ou semi-aberto.

Não há surpresa nessa condenação. As evidências do comando de Zé Dirceu no esquema do mensalão saltam aos olhos de todos os observadores. Todavia, Dirceu encontra quem o defenda. Certamente, não o fazem por não acreditar no seu comando, o fazem precisamente porque o aceitam como comandante: porque o admiram, porque o amam, porque o idolatram.

Esta seita de dirceuzistas é ramificada, embora com núcleo no PT. Mas o PT é maior do que esta seita de fanáticos.

A seita dos fanáticos dirceuzistas tem feito arreganhos totalitários contra as instituições democráticas. Dirceuzistas graúdos impuseram à cúpula do PT uma nota de solidariedade a Dirceu com ameaças veladas ao STF e à imprensa. O próprio Dirceu avisou que, passado o segundo turno das eleições, será o momento da reação.

Em suma: Zé Dirceu e seus diretos paus-mandados preparam um ataque às instituições democráticas brasileiras. Ousadia não lhes falta. Ousadia, aliás, que sempre foi característica dos totalitários.

O PT, no entanto, como já disse, é maior do que isso. Pela sua imensa maioria não se deixará levar pela aventura tresloucada de fazer da defesa de corruptos bandeira de luta. Não se deixará levar pela pregação totalitária de submeter politicamente o Poder Judiciário e de calar a mídia oposicionista, restabelecendo a censura dos tempos da ditadura.

O lugar do corrupto Zé Dirceu - e de outros corruptos mensaleiros menores -, como já decidiu o Supremo, é na cadeia. O lugar do PT não é na cadeia, mesmo porque o PT não cabe na cadeia. O PT é um partido que, com seus acertos e erros, é importante para a democracia brasileira. Seria uma pena que - ao invés de aprender com os erros, de  expurgar corruptos e quadrilheiros, de renovar-se democraticamente, de retornar a antigos valores éticos, de submeter-se aos ditames do Estado Democrático de Direito - caísse sob o domínio do fanatismo dirceuzista.

Os petistas decentes e democratas - e os há - devem começar a reagir ao discurso dos fanáticos. Devem decidir se ficam com a Democracia ou com a aventura totalitária dirceuzista que se desenha.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Artistas e intelectuais preparam manifesto em defesa do grande Zé Dirceu do mensalão

Antigamente, artistas e intelectuais brasileiros tinham o bom costume de assinar manifestos contra a censura, contra a repressão, contra a ditadura. Agora preparam um manifesto em favor de corruptos mensaleiros.

É um troço esquisito: segundo se anuncia, está sendo articulado, por amigos de José Dirceu, um abaixo assinado com mais de 200 assinaturas. Os intelectuais dirceuzistas têm até um porta-voz, que é o cineasta Luiz Carlos Barreto. Eis o que o porta-voz reporta:

"Não reivindicamos a inocência de ninguém. Mas esperamos que os ministros do STF saibam punir quem tem de ser punido e inocentar quem tem direito à inocência".

Não seria de se esperar o contrário. Mas tem caroço nesse angu. Caroço saliente. É o seguinte: Barretão, que é amigão do peito de Zé Dirceu, está indicando que os dirceuzistas se darão por satisfeitos se os idealistas do PT escaparem da degola; os corruptos mensaleiros de direita podem se lascar. Na pior das hipóteses, os dirceuzistas, em se salvando Zé Dirceu, deixarão que se lasquem também os mensaleiros petistas menores.

Deve ser mais ou menos isso. Ao certo não se pode saber, porque o raio do manifesto não aparece, seus articuladores apenas invadiram a internet com balões de ensaio. Um dos blogueiros que repercutiu foi o Ricardo Kotscho, amigão do Lula e do Dirceu. O título do post em que Kotscho trata do assunto é o seguinte:

"Em defesa do amigo e cidadão José Dirceu"

Mas, no manifesto, avisa Kotscho, o nome de Dirceu não é citado.

Voltando ao porta-voz oficial, o Barretão: "Esperamos que o julgamento seja feito no tribunal". 
Porra!, o julgamento está sendo feito no Tribunal.

Já o Kotscho, que diz que o nome de Dirceu não é citado no manifesto, finaliza o seu post assim:

"Em outras palavras, questões jurídicas e político-eleitorais à parte, o que o documento dos seus amigos reivindica é respeito aos direitos do cidadão José Dirceu".

E os direitos dos outros cidadãos-mensaleiros?

Por que diabos não deixam de conversa e abrem logo o jogo? Porque o diabo é esperto: primeiro sonda.
É uma boa tática. Eu mesmo acho que esse troço não vai colar. Manifesto a favor da corrupção? Talvez seja um pouco demais, até mesmo para artistas e intelectuais adeptos da ética do artista petista Paulo Betti, que aconselha os idealistas a meterem "a mão na merda".

Acho que não vai colar, que não vai salvar os mensaleiros petistas da cana dura, mas estou curioso. Até mesmo porque, segundo Luiz Carlos Barreto: "Não é um manifesto. É um texto filosófico-doutrinário".

Puta que Pariu! Será que vão elaborar um novo Imperativo Categórico para justificar o direito dos petistas ilustres à corrupção?

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

"O Nome da Rosa" e o Nome do Mensalão

O título do famoso romance de Umberto Eco ecoa uma célebre polêmica da história da filosofia, a "Questão dos Universais". Essa questão ocupou as mais vigorosas mentes do século XI e XII, envolvendo, dentre outros Pedro Abelardo, o malfadado amante de Heloísa.
O problema remonta a Platão. O Platonismo pretende que todas as coisas do mundo, singulares e imperfeitas, sejam cópias de uma realidade perfeita que existe no Mundo das Ideias. Por exemplo: cada rosa singular - precária e perecível - seria cópia da Rosa perfeita e eterna que existe no Mundo das Ideias. Da mesma forma, cada mulher, homem, bicho, planta ou objeto inanimado; tudo que existe no mundo ilusório em que vivemos seria mera sombra, cópia, projeção da respectiva matriz do Mundo das Ideias. Porém estas realidades ideais e eternas não são sensíveis, não têm a ver com o mundo empírico, elas são apenas inteligíveis.
Essas matrizes únicas de infinidades de singulares passaram, na filosofia medieval, a ser denominadas de "universais". A Rosa é um universal. A rosa que desabrochou hoje no seu jardim, caro leitor e cara leitora, rosa que vai murchar, despetalar e fenecer, é um singular, cópia imperfeita daquela Rosa perfeita e eterna do Mundo das Ideias.
Essa Teoria das Ideias de Platão teve formidável influência na história da filosofia, com tantos adeptos quanto desafetos.

Na Baixa Idade Média essa questão ocupou o centro do debate intelectual, dividindo os filósofos em dois campos: "realistas" e "nominalistas". Os "realistas" eram platônicos que afirmavam a realidade dos universais. Os "nominalistas" consideravam que os universais não tinham existência própria, seriam apenas "nomes", meramente emissões vocálicas - flatus voces -, e que só os singulares a que esses nomes se referiam tinham existência própria.
Considera-se que o grande Pedro Abelardo deu a melhor resposta para a questão. Muito resumidamente: os universais não teriam realidade autônoma lá no Hiperurânio (região do mundo das Ideias), mas também não seriam apenas flatus voces, pelo contrário, seriam importantes instrumentos/mecanismos do pensamento que agrupam na compreensão as infinidade dos singulares, que não podem ser compreendidos um a um. Esse mecanismo de percepção, apreensão e compreensão do mundo empírico constitui b-a-bá do aprendizado. São os conceitos.
Devemos entender que conceitos são representações abstratas unificadoras. Sem tais abstrações, o discurso racional seria impossível, dada a infinidade dos referentes singulares.

E o que tem essa conversa toda a ver com o "Nome do Mensalão"? Tem que os defensores dos mensaleiros vêem de dar imensa contribuição à filosofia e à linguística, avançando a mais ousada das teorias: a de que as abstrações têm realidade física, corporal.
Vejam: eles, defensores dos mensaleiros, afirmam que o mensalão nunca existiu, e desafiam quem diz o contrário a provar a existência do mensalão; não demonstrando o mensalão, mas mostrando o mensalão.

O Ministério Público Federal demonstrou exaustivamente a existência do mensalão. Todo mundo que acompanhou o escândalo constatou a enormidade das falcatruas. Alguns réus reconhecem algumas dessas falcatruas, como o Caixa 2. Mas, respondem os defensores dos mensaleiros, nada disso é mensalão. Alguns mensaleiros receberam um grande bolada de uma vez só. Outros receberam mais de uma vez por mês; mas não está provado que alguém tenha recebido, rigorosamente, mês a mês. Então, cadê o mensalão?
Eles querem ver o mensalão, tocar o mensalão, cheirar o mensalão; para poderem acreditar que existiu.
O mensalão está para os mensaleiros como o corpo da vítima de um crime de assassinato está para o assassino. Se o corpo não aparecer, o assassino se safa.
Os mensaleiros e seus defensores não aceitam nada menos que o corpo do mensalão.
Se os ministros do STF aceitarem a tese, os mensaleiros estarão salvos.
Eis a questão: o mensalão não é uma pessoa ou um bicho; nem sequer um objeto. O mensalão é meramente um conceito, um "nome". No caso, o nome designativo de um escândalo de corrupção, com variados entes envolvidos em variadas circunstâncias.
Os mensaleiros podem estar sossegados, o corpo do mensalão não vai aparecer.

Porém, ai porém, os defensores dos mensaleiros querem obter uma segunda vitória: fazer desaparecer o nome. Um advogado do PT quer restabelecer a censura dos tempos da ditadura para proibir a imprensa de usar a expressão "mensalão". É uma idéia de jerico. Acho que não prospera, mas mesmo que prosperasse, continuaria a ser uma idéia de jerico; pois o termo seria imediatamente substituído por outro, que logo se tornaria pejorativo, porque a pejoração não está no nome, está naquilo que o nome designa.

O advogado do PT exige que no lugar de "mensalão" seja usada a expressão "Ação Penal 470".
Vejam um primeiro resultado da referida idéia de jerico: o humorista Sponhoz (o melhor do Brasil) já tratou de fazer uma charge em que os três irmãos metralhas aparecem com suas características roupas de presidiário com números estampados, respectivamente: 470-171; 470-172 e 470-173.

Vou parar por aqui. Vou reler uns trechos de "O Nome da Rosa",  a ver se me chega inspiração para escrever o terceiro capítulo desta saga mensalônica. Quer dizer, o assunto já tenho na cabeça, só falta o nome; que o queria bem sugestivo.