Blog Rocha 100

No princípio, criou Deus os céus e a Terra”. Ótima frase para um Blog que navegará 100 fronteiras: dos céus metafísicos à “rude matéria” terrestre. “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Pois, somos também deuses, e criadores. Podemos, principalmente, criar a nossa própria vida, com autonomia: isto se chama Liberdade. Vida e Liberdade são de Deus. Mas, quem é “Deus”? Devotos hebreus muito antigos, referiam-se a Ele apenas por perífrases de perífrases. Para Anselmo de Bec, Ele é “O Ser do qual não se pode pensar nada maior”. Rudolf Otto, diante da dificuldade de conceituá-Lo, o fez precisamente por essa dificuldade; chamou-O “das Ganz Andere” (o Totalmente Outro). Há um sem número de conceitos de Deus. Porém, o que mais soube ao meu coração foi este: “O bem que sentimos intimamente, que intuímos e que nos faz sofrer toda vez que nos afastamos dele”. É de uma jovem filósofa: Catarina Rochamonte.

sábado, 23 de novembro de 2013

Os bolchevistas da Papuda: coitados; nem na prisão eles são livres

Na prisão, restringido das liberdades usuais de ir e vir, de tomar banho de mar onde tiver mar, de estar no aconchego da família ou de sair para as baladas da noite; parece-me que o presidiário ganha certa liberdade moral: tem que dar satisfações técnico-jurídicas ao sistema carcerário, mas se colocou fora do alcance da disciplina nossa de cada dia aqui do lado de fora: disciplina imposta pela esposa Dona Encrenca (ou pelo marido machista), pela sogra, pelo patrão, pelos vizinhos, pela opinião pública, etc. Para o preso, via de regra, valem as regras da  prisão, Deus (se acreditar em Deus) e sua solitária consciência. Todavia, Deus do Céu!, segundo notícias recentes, os mensaleiros presos na Papuda já estão submetidos à disciplina do chefe bolchevista Zé Dirceu.

O bolchevismo promove dois tipos de servidão: 1) a servidão de toda a sociedade submetida pelos chefes bolchevistas ao regime totalitário; 2) a servidão voluntária do próprio bolchevista à feroz disciplina partidária.

Disciplina requer chefe que a imponha. Por isso mesmo, os bolchevistas não vivem sem um tirano, sem um ídolo; como Lênin, como Stálin, como Mao. O bolchevista verdadeiro entrega sua vida à causa, cujos caminhos são indicados pelo Partido. Partido este que é iluminado pelo "guia genial". Eles, os bolchevistas, acham isso lindo. No bolchevismo é assim: o sujeito é  chefe ou é servo.

Voltemos ao caso dos bolchevistas da Papuda. Zé Dirceu, todos sabem que é chefe. Delúbio, está na cara que é servo, tem vocação para a servidão, já deu declarações comoventes de sua dedicação incondicional à causa e ao Partido (Partido pelo qual fará qualquer coisa; além das que já fez). Genoíno, que não terá tanta vocação para servo quanto Delúbio, creio que seu desespero para sair da Papuda e ficar em prisão domiciliar será menos pelo coração e mais para escapar do jugo de Zé Dirceu. Quanto a Jacinto Lamas (que nome de lascar pra um corrupto, né não?) e Romeu Queiroz, estes são só companheiros de mensalão, não são companheiros de PT e não são bolchevistas; não vão se adaptar de jeito nenhum. Só um autêntico bolchevista suporta a férrea disciplina bolchevista. Lamas e Queiroz haverão de antes preferir a morte.

Tem uma bela palavra do Mahatma Gandhi sobre a Liberdade:

"A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. A Liberdade é uma questão de consciência".

O bolchevista, coitado, aonde for, até na cadeia, carregará consigo a sua servidão voluntária.

Outros mensaleiros estão prestes a serem despachados para a Papuda. Ruim mesmo não será o regime fechado ou semi-aberto, insuportável será a tirania do chefe bolchevista Zé Dirceu. Ninguém merece. Quer dizer, talvez esses corruptos mereçam.


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Punhos erguidos contra a democracia. Ou: o PT não está, não pode estar, não deve estar e não estará acima da Lei

Lá atrás, quando era oposição, o PT combatia a corrupção. No poder, esse combate foi relativizado. O PT aliou-se a políticos anteriormente estigmatizados, pelo próprio PT, como exemplos máximos de corrupção. E também - como acaba de ser provado, comprovado, julgado, condenado e sentenciado - o PT meteu-se em corrupção, sendo o mensalão o caso emblemático. Todavia, o PT manteve-se sempre implacável com os corruptos seus adversários. Surpreendentemente, porém, se o corrupto for do próprio PT, não será criticado e nem expurgado; será glorificado. É impressionante: os intelectuais marxistas do PT conseguem demonstrar, pela lei dialética da "negação da negação", que ladrão, em sendo do PT, é herói, não é ladrão.

O que se encontra por trás dessa extravagância ridícula é algo tenebroso: o FANATISMO. Fanatismo que produz a sanha autoritária que coloca o partido acima do Estado, da Lei, da Justiça, dos juízos de Racionalidade e de todas as evidências da Verdade. Historicamente, tem sido essa a regra tanto para os partidos da esquerda autoritária (bolchevista) quanto para os partidos da direita autoritária (nazi-fascista).

Presos por corrupção, os chefes petistas José Dirceu e José Genoíno erguem o punho; um grupo de fanáticos petistas repete o gesto. Tal gesto remete a revolução e rebeldia. No caso presente, é uma pantomima. Lá mais atrás, nos "anos de chumbo", Dirceu e Genoíno foram revolucionários: ergueram punhos e armas contra a ditadura militar. Hoje, denunciados, indiciados, julgados e condenados na vigência plena do Estado Democrático de Direito, só podem estar erguendo os punhos contra a Democracia.

Delúbio Soares não foi herói nos "anos de chumbo", mas imbuiu-se do espírito de martírio típico dos heróis. Ele dará a vida pelo partido, no qual supõe toda a autoridade do mundo. É comovente. Nem por isso o tesoureiro do mensalão será menos corrupto.

Henrique Pizzolato, o petista que fugiu para a Itália, nem foi herói nem tem espírito de sacrifício, mas tentou soar heroico, em uma carta de cretinice alarmante. Vejam um trecho:

"Por não vislumbrar a mínima chance de ter julgamento afastado de motivações político-eleitorais, com nítido caráter de exceção, decidi consciente e voluntariamente fazer valer o meu legítimo direito de liberdade para ter um novo julgamento, na Itália, em um tribunal que não se submete às imposições da mídia empresarial...". 

A condenação desse bravo amante da liberdade se deu com placar de 11 a 0 (onze a zero) pelos crimes de corrupção passiva e peculato e 10 a 1 (dez a hum) pelo crime de lavagem de dinheiro. Isso em um STF cuja maioria de juízes foi indicada pelo presidente petista Lula e pela presidenta petista Dilma. Curiosamente, o votinho de absolvição que Pizzolato teve no caso da lavagem de dinheiro foi dado por um ministro indicado pelo presidente Collor de Mello, o Marco Aurélio. Quer dizer, então, que Lula e Dilma escolheram a dedo ministros dispostos a prejudicar Henrique Pizzolato? Como se explica esse ódio de Lula e Dilma ao pobre Pizzolato?

José Dirceu também divulgou uma carta, da qual destaco dois trechos:

"... a cobertura da imprensa foi estimulada e estimulou votos e condenações, acobertou violações dos direitos humanos e garantias individuais..."; "... serei preso político de uma democracia sob pressão das elites..".

Dirceu diz isso como se o PT não tivesse espaço na imprensa. Mas o PT tem largo espaço na imprensa desde o tempo em que era oposição. Saber usar muito bem esse espaço foi, aliás, uma das condições para chegar ao poder. Sendo que o PT tem imenso espaço na imprensa (mídia em geral), o que se pode entender da fala de Dirceu é que o que o PT quer não é mais espaço, mas todo o espaço; quer submeter toda a mídia ao seu comando. A democracia brasileira estar sobre pressão das elites é possível, porque é natural de toda democracia ser submetida a pressões: das elites, dos trabalhadores, dos estudantes, dos movimentos sociais, dos excluídos, das classes médias, dos intelectuais, dos artistas, dos desempregados, etc. O que não falta, nem deve faltar, em democracia é pressão. Mas por que a democracia durante o governo do PT seria especialmente sensível à pressão das elites? Por que Lula e Dilma escolheriam tão zelosamente para o STF ministros predispostos a se submeterem aos interesses das elites? Também será difícil entender que seja preso político alguém que em plena vigência de regime democrático é preso por corrupção. Todavia, se for realmente o caso, o Brasil já tem o preso político deputado Natan Donadon. Já teve também o preso político ex-governador José Roberto Arruda, que passou uns tempos na Papuda. Até o Paulo Maluf foi preso político por breve temporada.

A corrupção do mensalão foi uma corrupção maior do que as outras, com objetivos estratégicos de poder, porém, essencialmente, corrupção vulgar. Os punhos erguidos de Genoíno e Dirceu na chegada à PF paulista foram uma tentativa de usar um heroísmo passado - de punhos erguidos e armas em punho - para envernizar a madeira podre da corrupção medíocre de hoje. Da mesma forma, a reivindicação da condição de preso político. Essa heroica condição se contrapõe à deprimente condição de corrupto preso. E eles têm direito a essas ilusões.

Os revolucionários marxistas-leninistas dos "anos de chumbo" eram tão idealistas e destemidos quanto eram violentamente autoritários. Uma perspectiva que se abre ao desespero dos chefes petistas presos é arrastar o conjunto dos militantes ao caminho do velho autoritarismo revolucionário para impor a versão do partido contra as evidências da Verdade, contra os juízos de Racionalidade, contra a Justiça, contra a Lei e contra o Estado Democrático de Direito.

É uma aventura perigosa; e é, para os fanáticos, uma tentação.



segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A Festa da 5ª edição da ROCHA 100 - Revista 100 Fronteiras. Polêmica reaberta: revisar Lei da Anistia é veneno contra a democracia



ROCHA 100 - Revista 100 Fronteiras chegou à sua 5ª edição com grande festa no Restaurante do Arruda, aprazível recanto da praia do Bessa, em João Pessoa-PB. Dentre outras, registramos as seguintes presenças: Leôncio Vilar, o Embaixador do Abacaxi; casal Manoel e Lourdes Von Sohsten; casal Romeu e Cláudia Carvalho; secretária de Finanças/PB Aracilba Rocha; deputado Genival Matias; assessor parlamentar Joca Holanda; médico José Ricardo de Holanda Cavalcanti; engenheiro José Alves da Rocha; Professor Fernando Alves da Rocha; Professora Nazaré; militante marxista e ex-preso político anistiado José Calistrato Cardoso;  militante marxista e ex-preso político anistiado Martinho Campos; jornalista Rafael Freire; geógrafa Janete Lins Rodriguez, diretora do Museu da FCJA; advogado e historiador Waldir Porfírio, membro da Comissão da Verdade/PB; Paulo Giovanni, presidente da Comissão da Verdade/PB... muita, muita gente. Todos muito bem recebidos pelos anfitriões Arruda, Arrudinha e Madame Arruda.

A revista, editada pela Sal da Terra, com tiragem de 5 mil  exemplares, está também disponível eletronicamente em www.portal100fronteiras.com.br

Esta 5ª edição traz um reportagem muito importante sobre a atuação da Comissão da Verdade da Paraíba, enviada pelo diligente advogado e historiador Waldir Porfírio. E dá continuidade à polêmica da revisão ou não da Lei da Anistia. Martinho Campos e José Calistrato tomam posição pela revisão da Lei, eu tomo posição contra a revisão da Lei. Na verdade, apenas reproduzi, com alguns acréscimos, um post que já havia publicado aqui, o qual, por sua vez, reproduz trechos do meu livro "A Comissão e a Verdade - Sobre Anos de chumbo e Anistia". Segue o post reformulado, ou seja, o artigo, tal e qual publicado na ROCHA 100 - Revista 100 Fronteiras. 


Anistia Ampla, Geral e Irrestrita foi conquista do povo brasileiro:
revisar a Lei da Anistia é veneno contra a democracia


Martinho Campos e eu fomos convidados pela Comissão da Verdade da Paraíba para prestar depoimento sobre as perseguições sofridas durante a ditadura militar, nos “anos de chumbo”. Prestamos tal depoimento no dia 19 de setembro, pela manhã, na Associação Paraibana de Imprensa, a velha API de tantos debates e embates, de tantos eventos históricos, que tanto tem servido à Democracia e à Liberdade. Martinho foi um destacado dirigente do PORT (Partido Operário Revolucionário Trotskista), tendo participado das lutas camponesas na Paraíba e outros estados do Nordeste ainda antes de 64. Foi preso em 1963, e várias outras vezes depois do golpe militar. Foi seguidamente torturado. Aos 71 anos, no que pese os cabelos brancos, Martinho demonstra vigor e ânimo juvenis. Seu depoimento, circunstanciado e minucioso, foi pungente. Na ocasião, aliás, recebi de Arthur Cantalice uma sugestão que repasso à Comissão da Verdade: depoimentos como esses deviam ser feitos, também, perante plateias maiores, em colégios e universidades, por exemplo.

Não irei refazer aqui o depoimento que fiz lá, vou apenas dar prosseguimento a uma polêmica antiga reaberta pelo meu depoimento: a revisão da Lei da Anistia. Eu sou contra e já escrevi um livro sobre o tema, que agora retomo. Do meu depoimento, farei apenas um pequeno registro, como forma de agradecimento.

Comecei por dizer que parte de  minha trajetória estava na plateia: minha irmã Lourdinha, na época universitária de Filosofia, minha confidente e que acompanhou as angústias da minha família em face das perseguições que rotineiramente eu sofria; Arthur Cantalice, meu professor no Liceu Paraibano, intelectual brilhante, destemidamente solidário com os estudantes; José Emilson Ribeiro, companheiro meu de lutas no movimento estudantil e no PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário); José Calistrato Cardoso, companheiro meu na luta pela Anistia, eu nas ruas de João Pessoa, ele na prisão de Itamaracá. Registro também a competência, desvelo e tenacidade do advogado Waldir Porfírio nos trabalhos da Comissão da Verdade da Paraíba. Feito o registro, vamos à polêmica.

Declarei minha posição contra a revisão da Lei da Anistia sabendo que, naquele ambiente, estaria amplamente minoritário. Com efeito, o sentimento pela revisão da Lei da Anistia é amplamente majoritário no âmbito das Comissões da Verdade, das inúmeras Comissões da Verdade criadas na esteira da Comissão Nacional da Verdade. É tão majoritário nesse âmbito quanto minoritário é no conjunto da sociedade. O povo brasileiro, que no distante ano de 1979 ocupou as ruas do Brasil clamando por Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, ficou bem feliz e comemorou a vitória quando da edição da bendita Lei. Comemoração que se estendeu por meses a fio, que se renovava a cada momento em que era libertado um prisioneiro político, a cada momento em que voltava um exilado. Enfim, todos os prisioneiros políticos foram libertados, todos os exilados voltaram. Essa Lei de Anistia abriu para nós o caminho da redemocratização. Essa Lei de Anistia foi das mais benéficas da história do Brasil e da história da democracia no mundo. Pretender sua revisão depois de mais de três décadas é um despropósito. Eu escrevi um livro sobre esse despropósito, portanto, limito-me agora a indicar o livro aos interessados. O título é"A Comissão e a Verdade - sobre 'anos de chumbo' e Anistia"; e está disponível em www.portal100fronteiras.com.br. Entendo que a revisão da Lei da Anistia possa se justificar à luz dos interesses do marxismo-revolucionário, que protagonizou a luta armada contra a ditadura militar. Todavia, à luz dos interesses da democracia, não se justifica; e no meu livro explico porque. Acho mesmo que a revisão da Lei da Anistia é veneno para a democracia, e espero que meu livro seja uma espécie de contraveneno. Para atiçar a curiosidade dos leitores, cito alguns trechos:

"No Brasil, em 1979, a exigência de punição dos agentes da ditadura colocaria em risco a transição pacífica e negociada. A prudência - que em grego se diz 'phrónesis', e foi elevada por Aristóteles à condição de máxima virtude política - prevaleceu; e o povo, ainda mais que os seus líderes, optou pela transição pacífica e negociada. Querer, mais de trinta anos depois, invalidar retroativamente uma negociação concluída e frutificada, é um despropósito". 

"A campanha pela revisão da Lei de Anistia tem dupla matriz: a) um sentimento de justiça; b) um oportunista projeto político-ideológico de retomar o confronto; ou seja, revanche: estando agora a esquerda em condições de vantagem".

"A esquerda revanchista, defensora da revisão da Anistia, não quer resgatar a verdade, quer recuperar os tempos e a guerra. Se conseguir, pode vencer a guerra, e implantará uma ditadura revolucionária. Mas pode também perder a guerra, com a possível sobrevinda de uma ditadura contrarrevolucionária. De uma ou de outra forma, a democracia perderá".

"As organizações marxistas revolucionárias (bolcheviques) que fizeram o enfrentamento armado com a ditadura militar não lutavam por democracia, mas pela implantação de uma ditadura revolucionária, dita "ditadura do proletariado".

"'XL - a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu': Deverá o furor da justiça retroativa sobrepor-se à letra da Constituição Soberana? Deverá a Lei da Anistia ser revisada para punir exemplarmente agentes do Estado ditatorial que torturaram e assassinaram? Ou para punir exemplarmente militantes revolucionários cujo acendrado idealismo os levou a cometer crimes de terrorismo naqueles longínquos 'anos de chumbo'? Não será possível abominar a tortura e o terrorismo sem essas tardias punições exemplares? Não terá o amor à democracia nos ensinado a abominar todas as ditaduras - de direita e de esquerda -, e não apenas determinadas ditaduras?"

"Todavia, pensar que, uma vez revisada a Lei de Anistia, seja possível punir outros crimes mas não esses; tal pensamento seria um aviltamento dos juízos e uma afronta à memória dessas vítimas. Nem por serem poucas serão indignas. Que se chorem as vítimas da ditadura, que se as lembrem, que se as honrem, que em nome delas se peça reparações. Porém: Márcio, Carlos Alberto, Francisco Jacques, Salatiel; e ainda outras vítimas inocentes da esquerda revolucionária? Não se deverá chorar por elas? Não merecem ser lembradas? Não merecem honra? Não haverá quem, em nome delas, peça reparações?".

No meu livro, cito, dentre outras, esta lição de Norberto Bobbio: "Agora que a esquerda revolucionária reconheceu os direitos da liberdade, quer todos os direitos, e imediatamente. Inclusive o direito de impunidade que foi sempre a prerrogativa dos soberanos e dos déspotas"

Não é digno, não é decente o clamor por justiça seletiva. Se querem a verdade, as Comissões da Verdade não podem investigar os crimes da ditadura com uma mão e esconder os crimes da esquerda revolucionária com a outra. Da parte da democracia, interessa que o relatório da Comissão Nacional da Verdade seja inteiramente verdadeiro. Assim sendo, servirá para afastar do horizonte da Pátria a sombra das práticas de crimes de terrorismo de Estado e a sombra das práticas de crimes de terrorismo revolucionário. E afastar a sombra de todas as ditaduras: de direita ou de esquerda, nazi-fascista ou bolchevista, dos militares ou do proletariado.

domingo, 3 de novembro de 2013

Deus Seja Louvado por termos Rachel Sheherazade - ou a intolerância dos laicistas nanicos "politicamente corretos" - ou, ainda, a intolerância liliputiana de abaixo-assinados para demitir jornalistas

No Portal 100 Fronteiras está reproduzido um excelente post do Blog de Reinaldo Azevedo sobre a âncora do SBT Brasil, de quem o ex-presidente Lula não gosta. E ele tem razão para não gostar. A paraibana Rachel, nascida em João Pessoa, é mesmo uma mulher das Arábias, do Oriente, do outro mundo: a nossa Sheherazade não tem medo das patrulhas lulo-petistas e diz o que pensa. Bendita coragem. E louvemos a Deus por termos ainda no Brasil quem não tenha medo de  patrulhas político-ideológicas.

Não que eu concorde em tudo com o que pensa e diz a Rachel; mesmo porque, em tudo, eu não concordo nem comigo mesmo. Mas ela diz com força de convicção e argumenta com segurança. Ainda por cima, a moça é bonita que faz gosto. Deus Seja Louvado!

Essa frase - Deus Seja Louvado! - é, aliás, o assunto de um dos comentários da Rachel nos vídeos apresentados no texto de Reinaldo Azevedo.  Vejam só: em 2012 o Ministério Público Federal requereu na Justiça o expurgo da bendita frase das cédulas de real. Fez isso alegando o princípio da laicidade do Estado. Segundo a Procuradoria, a inscrição da frase nas cédulas atentaria "contra os princípios da igualdade e da não exclusão de minorias". Um procurador lá, especialmente obtuso ou escandalosamente cínico, afirmou que a medida visava "proteger a liberdade religiosa de todos os cidadãos". Putaquipariu! Tem de ser muito imbecil para achar que o nome de Deus numa cédula atenta contra a liberdade religiosa de alguém. Pois, a Rachel, no referido vídeo, passa um sabão em regra na laicidade fajuta e termina por concordar com o ex-presidente José Sarney: "É coisa de quem não tem o que fazer".   

Foi o então presidente Sarney quem, em 1986, ordenou a  inclusão da frase nas cédulas. Fez muito bem. E outra coisa boa que tem o Sarney, é que cultiva o Padre Antônio Vieira. Quem gosta de Vieira, só por isso já será perdoado de muitos pecados.

Os laicistas brasileiros que brigam para arrancar uma frase de uma cédula são movidos por uma feroz imbecilidade, aquela da doutrina do "politicamente correto", que, a pretexto de salvar o mundo, não hesitará em levar os habitantes do mundo para o inferno. O Estado laico é um fundamento da Democracia. O filósofo cristão Iremar Bronzeado remete este fundamento ao enunciado de Jesus: "A César o que é de César e a Deus o que é de  Deus". A democracia é fundamentada não apenas em leis, mas também na história, costumes e tradições. O nome de Deus em uma cédula não ameaça a democracia; o fanatismo, sim. A democracia norte-americana, por exemplo, talvez não sobreviva à espionagem do Obama, mas nunca foi ameaçada pela inscrição do nome de Deus nas cédulas de dólar: "In God we trust" ("Em Deus nós confiamos"). Também não sei se existe algum ateu tão fanático a ponto de deixar de receber notas de dólar ou real por ojeriza ao nome de Deus.

Arremeter contra o nome de Deus numa cédula remete a tradições de intolerância e fanatismo, não a tradições democráticas. Os intolerantes perseguem tudo o que os incomoda, os fanáticos brigam por qualquer motivo. Na sátira de Jonathan Swift, em "As aventuras de Gulliver", lá na ilha de Lilliput, país de nanicos, os nanicos fanáticos pontagrossenses entram em guerra com os nanicos fanáticos pontafinenses por discordarem por qual das pontas se deve quebrar o ovo. Os laicistas fanáticos, moralmente nanicos, querem negar uma tradição secular do povo brasileiro e abrir uma guerra de intolerância contra imagens e símbolos cristãos. Já conseguiram arrancar crucifixos de paredes e não sossegarão enquanto não implodirem o Cristo Redentor. Sempre com as melhores intenções, sempre conforme à doutrina "politicamente correta", que tem sido o melhor estrume das mentes vagabundas neste início de terceiro milênio.

Voltando a Rachel Sheherazade, ela trabalhava na filial pessoense do SBT e foi levada por Sílvio Santos para a matriz justamente pela repercussão de um desses seus comentários arrasadores. De lá pra cá, em umas 1001 noites de SBT Brasil, ela tem incomodado muita gente ruim e muita gente besta. Não é de estranhar que tenha quem queira vê-la no olho da rua. Tem até abaixo assinado de ativistas patrulheiros exigindo a demissão da moça.

Parêntese: fazer abaixo assinado exigindo demissão de jornalistas por questões de opinião é de uma intolerância nauseabunda; coisa típica de nanicos liliputianos.

Mas haverá de ter também quem exija a permanência da jornalista no seu emprego; e é o público, o público em geral, não este ou aquele setor ou grupo organizado. Não pelas opiniões da jornalista, mas porque ela tem o direito de ter opiniões e, em sendo profissional da  comunicação, tem o dever de expressá-las. Sem ter medo de patrulhas, é apenas ao público e à sua consciência que Rachel Sheherazade tem servido. E é isso que lhe compete, é isso que a honra.


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Saulo, por que me persegues?: A Paixão Judaica e o Caminho de Damasco

Eu sou cristão e, até por ser cristão, abomino racismos. Sendo cristão, por isso mesmo, tenho profunda estima e admiração pelo povo hebreu, também chamado israelita e depois chamado de judeu; isso porque, havendo sido dispersas as tribos de Israel, restou forte a tribo de Judá. Jesus é de Judá, descendente direto do grande rei Davi.

De toda variada forma de hostilidade, uma das que mais me abismam é o anti-semitismo/anti-judaísmo por parte de cristãos; sendo Jesus Cristo judeu. E também Nossa Senhora e São José são judeus; e os 12 Apóstolos. Dos Evangelistas, Lucas, que não estava entre os 12, possivelmente era grego; os outros três eram judeus. O Apóstolo dos Gentios, aquele Saulo de Tarso - que, em se tornando Paulo, levou o cristianismo para além dos círculos judaicos -, era judeu. Ademais, os cristãos consideram sagrado não apenas o Novo Testamento, que conta a vida de Jesus, mas também o Velho Testamento, escrito por judeus e que conta a história do povo judeu. Isso, aliás, todo cristão sabe. Como, então pode haver um cristão ante-semita/anti judeu? Eu escrevi um ensaio sobre essa minha perplexidade; consta do primeiro livro que publiquei, intitulado "No Coração de Antígona". Posteriormente, encontrei algumas respostas à minha perplexidade no livro "História dos Judeus", de Paul Johnson. Este esplêndido livro me foi presenteado pelo meu amigo historiador Marcus Odilon, o qual diz, com razão, que o cristianismo é "uma dissidência do judaísmo". Eu aconselho vivamente a leitura desse livro, cujo autor, aliás, é cristão. Recorrendo a Paul Johnson, veremos com maior facilidade a grandeza incomensurável da contribuição dos judeus para a nossa Civilização Ocidental Helênico-Judaico-Cristã. Contribuição realizada tanto como povo como por indivíduos oriundos deste povo, mas assimilados em outras culturas. Com efeito, em qualquer campo do saber os judeus se destacam. Quando é o caso, destacam-se, inclusive, em campos opostos. Exemplo: os judeus tiveram um excepcional papel na construção do capitalismo moderno; ao mesmo tempo, tiveram insuperável destaque no movimento socialista internacional, muito especialmente no marxismo.

Como ilustração do papel dos judeus na Civilização, apresentamos algumas listas com judeus proeminentes:

Na Filosofia:
Fílon de Alexandria - Maimônides - Baruch Spinoza - Moisés Mendelssohn - Karl Marx - Henri Bergson - Ludwig Wittgstein - Emmanuel Levinas - Hanna Arendt - Walter Benjamim.

Na Ciência:
Sigmund Freud - Albert Einstein (Nobel de Física) - Niels Bohr (Nobel de Física) - Albert Sabin (Nobel de Medicina) - Hans Krebs (Nobel de Medicina) - Aaron Klug (Nobel de Química) - Rita Levi-Montalcini (Nobel de Medicina) - Gustav Hertz (Nobel de Física) - Gertrude Elion (Nobel de Medicina) - Rosalyn Sussman Yalow (Nobel de Medicina).

No Cinema/atores:
Elizabeth Taylor - Yves Montand - Charles Bronson - Harrisson Ford - Dustin Hoffman - Kirk Douglas - Michael Douglas - Peter Sellers - Paul Newman - Barbara Streisand.

No Cinema/diretores:
Charles Chaplin - Jerry Lewis - Woddy Allen - Sergei Eisenstein - Fritz Lang - Steven Spielberg - Stanley Kubrick - Alfred Hitchcock - John Huston - Billy Wilder.

Na Música:
Félix Mendelssohn - Gustav Mahler - Leonard Berstein - Yhehudi Menuhin - Arnold Schoenberg - George Gershwin - Bob Dylan - Paul Simon - Anton Rubinstein - Max Bruch.

Na Literatura:
Heirich Heiner - Marcel Proust - Franz Kafka - Paul Heyse (Nobel) - Boris Pasternak (Nobel) - Saul Bellow (Nobel) - Nadine Gordimer (Nobel) - Nelly Sachs (Nobel) - Elias Canetti (Nobel) - Gabriela Mistral (Nobel).

Na Política:
Benjamim Disraeli - Ferdinand Lassale - Eduard Bernstein - Rosa de Luxemburgo - Karl Kautsky - Leon Trotsky - Léon Blum - Daniel Cohn-Bendit - Theodor Herzl - Golda Meir.

Judeus brasileiros:
Sílvio Santos - Dina Sfat - Bussunda - César Lattes - Jacob Gorender - Juca Chaves - Clarice Lispector - Luiz Felipe Pondé - Cora Rónai - Tarso Genro.


Listas de judeus famosos são extensas e divulgadas não só por judeus, mas também por anti-semitas; estes fazem tal divulgação como prova de que os judeus articulam um plano para dominar o mundo. Essa é, aliás, uma propaganda anti-semita antiga, que já rendeu a célebre falsificação "Protocolos dos Sábios do Sião". Hoje, o principal objetivo dos anti-semitas é destruir o pequenino e bravíssimo Estado de Israel.

Cheguei ao fim do introito, necessário, porquanto falo do ponto de vista de um cristão declaradamente amigo do povo judeu; um povo milenarmente perseguido, ainda hoje perseguido.

A Paixão Judaica, a que me refiro no título, é um projeto teatral de WJ Solha. Foi apresentado à Funjope (Fundação de Cultura de João Pessoa) quando o Praefectus da capital da Paraíba era Ricardus e na Funjope mandava um César, o Chicus. É o melhor projeto teatral concebido no Brasil em décadas. De início, foi aceito pelo Ricardus e pelo Chicus; depois, por politiquices eleitoreiras, foi censurado, vetado e crucificado.

Depois que teve seu projeto vetado pela Funjope, Solha o publicou no site Eltheatro - mantido pelo saudoso teatrólogo Elpídio Navarro, e que foi o melhor site de cultura do Brasil -. Uma coisa impressionante: pela concepção dramática, pelos figurinos, pelas locações. Imaginem: o Ponto de Cem Réis, centro de João Pessoa, representa Jerusalém ocupada pelas tropas romanas do Imperador Tibério César, e lá no alto do Paraíba Palace Hotel um imenso retrato do Imperador, que é... Hitler. E muitos símbolos romanos erguem-se opressores pela praça, são as... suásticas nazistas. Com efeito, faz um poderoso efeito. O que se pretende, obviamente, é demonstrar que ao tempo dos acontecimentos narrados nos Evangelhos, Jerusalém estava submetida a odiosa opressão. O drama é elaborado de um ponto de vista judaico. E esse ponto de vista me comove, como cristão.

No meu ensaio já referido, refutei uma das alegações que sustentam a hostilidade de cristãos para com judeus; esta: "Os judeus mataram Jesus". Essa é uma das generalizações mais perversas da história. E é insustentável. Vejam: sendo Jesus Cristo judeu, tendo passado toda a sua vida entre judeus, tanto os que o amaram quanto os que o odiaram teriam de ser judeus.

Judeus do Sinédrio, fariseus, zelosos quanto à letra da lei mosaica e ciosos da autoridade do Templo, agiram para destruir o movimento dissidente liderado por Jesus. Nesse mesmo Sinédrio, havia judeus que amavam a Cristo, como foi o caso de Nicodemos e de José de Arimateia. No julgamento de Cristo, numa multidão ocasional, uma maioria de judeus preferiu Barrabás a Jesus. Alguns dias antes, outra multidão de  judeus recebera Cristo com festa e júbilo, na entrada triunfal do Rabi de Nazaré na capital da província. A execução de Jesus Cristo se deu por decisão da autoridade romana, mas não foram os romanos que mataram Cristo; nem eles são disso acusados. Mas os judeus foram, e são, acusados.

Vejam ainda - e parece-me que é isso que o drama pensado por Solha deixará insofismável quando for encenado -: os rebeldes nacionalistas judeus, chamados zelotes, tinham lá suas razões para preferir Barrabás a Cristo, pois Barrabás seria também um zelote, e dos mais destemidos. Os muitos judeus que amavam a Cristo seriam de índole mais pacífica e tímida; dificilmente conseguiriam enfrentar a disposição aguerrida dos zelotes que gritavam a favor de Barrabás.

Vejamos por comparação: na antiga Atenas, muito antes de Cristo, outro homem bom foi julgado e condenado. Chamava-se Sócrates e era filósofo. Foi na Ágora, em votação limpa e democrática. Com resultado apertado, os gregos atenienses condenaram o sublime Sócrates à morte pela ingestão do veneno cicuta. Porém, felizmente, o veneno da generalização não pesou como difamação perene sobre os gregos e a democracia. Os gregos e a democracia nunca foram genericamente responsabilizados pela morte de Sócrates.

WJ Solha não é cristão; se é judeu, não sei. Seja como for, A Paixão Judaica, quando encenada, ajudará a desfazer uma infâmia milenar; que desonra os cristãos que dela fazem uso.

A peça de Solha é, mais ou menos, o "Relato de Prócula" passado para o teatro. Não o romance todo, mas apenas o pequeno trecho que reproduz o "Relato" de Cláudia Prócula, esposa de Pôncio Pilatos. Em posts anteriores já considerei a concepção deste "Relato", em que se diz que Jesus Cristo foi preparado pelos romanos como agente dos interesses do Império, para debelar a rebeldia dos judeus (teoria furtada pelo teólogo/historiador norte-americano Joseph Atwill). Então, como se justifica meu entusiasmo por uma peça teatral baseada em uma concepção anti-cristã?

Vejam: na concepção de Solha, no "Relato" de Cláudia Prócula, Jesus Cristo tem existência real e é tal e qual está nos Evangelhos Canônicos; a diferença é que teria sido treinado desde menino pelos astuciosos romanos (especialmente pelo judeu-helenizado Fílon de Alexandria) para aquele papel; para servir à "Pax Romana". Não me convence, porém, se foi assim, não vejo nenhum prejuízo para o cristianismo. Já escrevi coisa parecida sobre aquele livro de Dan Brown, "O Código Da Vinci", onde o grande escândalo é que Jesus Cristo teria se casado com Maria Madalena e tido filhos. Igualmente não me convence; porém, se foi assim, acho que fizeram muito bem, e daqui, da distância do tempo, parabenizo o casal e faço um brinde. Por que eu haveria de ficar menos cristão ao descobrir que Jesus foi feliz nos braços de Madalena, com os seus filhinhos em volta fazendo algazarra?

SAULO NO CAMINHO DE DAMASCO - O judeu Saulo perseguia os cristãos. No caminho de Damasco caiu do cavalo. E ouviu uma voz: "Saulo, Saulo! Por que me persegues?". Saulo perguntou quem era, e ouviu: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues" (Atos 9, 4 e 5).

Pois, Saulo aprendeu que judeus não deviam perseguir cristãos, e que em cada cristão está o próprio Cristo. Pois, com maior razão e ênfase, será ensinamento de Jesus Cristo que cristãos não devem perseguir judeus. Nem muçulmanos, nem budistas, nem os irmãos da Umbanda e Candomblé, nem a animada turma da Nova Era de Aquarius, nem os ateus e nem ninguém.

Mantendo cada um a sua fé, crença, doutrina ou filosofia; é preciso entender o outro. E conviver. A Paixão Judaica será mais um passo no caminho dessa compreensão e convivência.

Questionado por Saulo sobre o que ele, Saulo, deveria fazer, ordenou Jesus: "Levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer" (Atos 9, 6).

Para WJ Solha, "entrar na cidade" será montar sua Paixão Judaica no centro da cidade de João Pessoa, no Ponto de 100 Réis. O que convém fazer cabe a todos que amam a arte e a liberdade de expressão: vamos fazer uma campanha, vamos perturbar prefeito e governador, Funjope e Espaço Cultural, e o que for preciso. Vamos reviver Jerusalém.

Eu estarei na platéia, mas vou furar o script. Não que vá pedir a morte para Barrabás, mas clamarei:

VIDA ETERNA! CRISTO JESUS!




segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A César o que é de César, a Solha o que é de Solha e a Cristo o que é de Cristo - capítulo 1

"Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (Mateus 22: 21). O filósofo Iremar Bronzeado interpreta esse enunciado de Jesus Cristo como um dos fundamentos da democracia: a separação entre governo e religião, ou seja, o Estado laico. Já o teólogo Joseph Atwill entende que a única preocupação de Jesus era que os judeus pagassem direitinho os impostos a Roma. Eu concordo com o filósofo Iremar. Aliás, em artigo publicado aqui neste Blog, Iremar Bronzeado, o Filósofo da Liberdade, afirma e demonstra que estão nos Evangelhos os fundamentos da democracia moderna. Já Atwill, roubou de WJ Solha a teoria de que Jesus Cristo teria sido um instrumento do Império Romano, e com a teoria roubada em mãos, vem ganhando fama. Vejam, como dito no post anterior, a teoria da construção pelos romanos de um líder religioso pacifista para debelar a rebeldia dos judeus em relação ao domínio imperial, servindo à Pax Romana; essa teoria é de WJ Solha. Devemos, pois, dar a Solha o que é de Solha. A revista Veja, por exemplo, não fez isso: a sua última edição (23/10/2013) traz uma matéria boa e com título muito feliz - Dai a Jesus o que é de Jesus -, onde a excelente articulista Adriana Dias Lopes comete um único pecado: considerar a teoria como sendo de Atwill, sem dar a Solha o que é de Solha.

Parêntese: eu mesmo devo a Solha uma retificação, e já pago. No post anterior, eu disse que no "Relato de Prócula" o principal artífice do líder judeu pacifista Jesus é o historiador Flávio Josefo, tal como referido por Atwill. Não é; Solha apresenta como educador de Jesus o filósofo Fílon de Alexandria. Confundi Josefo e Fílon em minha mente talvez porque ambos sejam judeus helenizados. Feita a retificação, aproveito para dizer que para esse papel Fílon é cronologicamente mais coerente, pois floresceu (nasceu em + ou - 20 a. C e morreu + ou - no ano 50) na época em que podemos considerar que tenha sido a época da vida de Cristo, enquanto a atividade de Josefo é posterior (nasceu em + ou - 37 d.C e morreu + ou - no ano 100). E mais: na história engendrada por Solha, Jesus Cristo tem existência pessoal e pela sua ação direta é que teria servido aos interesses da Roma Imperial. Para Atwill, Jesus teria servido aos interesses romanos, como "instrumento contrário aos interesses do povo comum", mesmo sem ter existido. Essa é uma cretinice de que já falei, mas voltarei a falar, porque dá gosto contraditar uma bobagem dessas.

Retorno ao leito principal do texto com isto: Joseph Atwill e outros inimigos de Jesus não lhe querem conceder nada, nem o mínimo, que é a existência. É muita sacanagem. E muita obtusidade na investigação histórica.

Lanço mão agora de um superior especialista, o filósofo judeu-cristão Henri Bergson, com um tópico que foi enviado para a área de comentário deste Blog:

"[...]mas é preciso que, seja como for, tenha havido um começo. De facto, na origem do cristianismo há o Cristo.. Do ponto de vista em que nos colocamos, e do qual a divindade aparece a todos os homens, pouco importa que o Cristo se chame ou não se chame homem. Não importa sequer que se chame Cristo. Os que chegaram ao ponto de negar a existência de Jesus não impedirão o Sermão da Montanha de figurar no Evangelho, juntamente com outras palavras divinas. Ao autor dar-se-á o nome que se queira, o que não significará, porém, que não tenha havido autor" (Henri Bergson, As duas fontes da moral e da religião)"

Parece-me irretorquível essa consideração do grande filósofo. Todavia, reforço: que poucos anos após os eventos narrados nos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João milhares de pessoas tenham aderindo ao cristianismo entre os judeus, e que logo mais sejam milhões pelo mundo; não será razoável pretender que tal tenha ocorrido sem um exemplo de carne e osso, uma pessoa viva que pudesse entusiasmar os primeiros adeptos, dando-lhes uma chama capaz de inflamar outras pessoas.  Os primeiros núcleos dos prosélitos cristãos, com registros históricos abundantes, contam com membros que conviveram com Jesus Cristo. As viagens e cartas do Apóstolo dos Gentios têm registro histórico por longa extensão do Império, e Paulo de Tarso, se não conviveu com Jesus Cristo, conviveu com quem conviveu. A morte de Jesus Cristo, durante Tibério César,  e a feroz perseguição de Nero aos cristãos separadas por apenas três décadas; ou seja, em 30 anos de existência o cristianismo tinha já ultrapassado os limites da distante província da Judéia e penetrado e estremecido o coração do Império. Tudo isso sem que nenhum Cristo tenha existido? Divino ou somente humano, sincero ou charlatão, sapiente ou doido de pedra, nunca existiu Jesus Cristo, pessoa nenhuma? Para Atwill, não; foi apenas uma invencionice que uns romanos astuciosos mandaram em pergaminho lá para a Judéia/Galiléia, a ver se colava.

Bem; colar, colou. Mas, se foi mesmo um projeto do imperialismo da Roma pagã, terá sido um projeto bem atrapalhado. Será divertido demonstrar isso no próximo capítulo. Essa novela vai render.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

"O Messias de César": para falar mal do cristianismo, teólogo sem-vergonha dos Estados Unidos rouba o 'Relato de Prócula', do escritor brasileiro WJ Solha

O teólogo/historiador norte-americano Joseph Atwill pensa estar surpreendendo e assustando o mundo com a seguinte história: Jesus Cristo foi uma invenção de aristocratas romanos para sossegar os rebeldes judeus e fazê-los pagar impostos a Roma sem reclamar. O mito de um líder judeu pacifista deveria inspirar nos rebeldes o hábito de "dar a outra face". Essa teoria é bastante criativa, e é também um furto descarado por parte desse Joseph sem-vergonha. Ora, falsa ou verdadeira, tal história, de Jesus Cristo como uma invenção para favorecer a 'Pax Romana' - política implantada pelo Imperador Augusto e continuada pelo Imperador Tibério - já foi contada, faz alguns anos, pelo genial artista-intelectual-filósofo-poeta-romancista brasileiro WJ Solha, no romance "Relato de Prócula".

Joseph Atwill, o gringo malandro, divulga sua "descoberta" através de livro, vídeos e palestras que recebem o nome genérico de "O Messias de César", sempre dizendo que tem novas e retumbantes evidências guardadas para mais tarde. Eu estou curioso para ver até onde vai a desfaçatez do sem-vergonha. No que até agora vem sendo divulgado ele não acrescenta nada de substancial à engenhosa história engendrada por Solha, inclusive a indicação de Flávio Josefo como principal artífice do mito do líder judeu pacifista. Deve-se esclarecer, todavia, que Flávio Josefo não foi propriamente um aristocrata romano, mas  um judeu-romanizado de Alexandria, erudito/filósofo de grande envergadura.

A história contada por Atwill, mesmo por ser roubada de fonte que eu já conhecia, não me surpreendeu nem assustou; todavia, surpreendeu-me a sua petulância e o volume de tolices que ele consegue despejar nas suas declarações midiáticas.

O historiador de araque afirma ser "uma questão de tempo até que sua teoria seja aceita". Primeiramente, a teoria não é dele, é de WJ Solha. Depois, são muitas e muito velhas as teorias negando a existência de Cristo ou dizendo que o Cristo verdadeiro não é aquele dos Evangelhos Canônicos. Por engenhosa que seja, a teoria de Solha, furtada por Atwill, não haverá de abalar o mundo mais do que as milhares de outras teorias anti-cristãs. Como se sabe, o cristianismo resistiu até mesmo ao ateísmo marxista, que chegou a dominar metade do mundo. O cristianismo resistiu ao feroz anti-cristianismo nazista, que disputou com o marxismo o domínio do mundo. Por que será então que esse teólogo besta acha que com uma teoria furtada vai destruir o cristianismo?

Vejamos outras petulâncias e bobagens desse teólogo de meia-tigela. Ele diz, segundo está registrado em vários portais (Yahoo Brasil, Galileu, Gospel Prime, etc.):

 "Apresento meu trabalho com muito cuidado, pois não quero atingir os cristãos. Mas isso é importante para nossa cultura, pois os cidadãos precisam saber que governos criam histórias e falsos deuses. Isto é feito para criar uma ordem social contrária aos interesses do povo comum".

Nós outros, cristãos, não somos tão débeis quanto esse babaca pensa que somos. Eu mesmo dispenso suas delicadezas e já li muito ataque ao cristianismo mais duro do que o dele: sem me abalar. Agora, supor que religiões são, principalmente, produto de artimanhas de governos malvados "para criar uma ordem social contrária aos interesses do povo"; isto é uma imbecilidade que abala minha paciência. Vejamos: os Tupis-Guaranis cultuaram Tupã, Jaci e outras divindades: tal culto não teria sido produto de necessidades espirituais desse povo, mas tão somente uma artimanha dos caciques para contrariar os interesses dos "índios comuns"? Os povos africanos cultuaram (e ainda hoje remanesce o culto na Umbanda e Candomblé) várias entidades representativas das forças da natureza (Oxóssi, Yansã, Xangô...): isso nada tem a ver com a simbiose desses povos com a natureza, não expressam imperiosas necessidades psicológicas e sócio-culturais, sendo apenas uma artimanha dos sobas africanos contra os interesses dos "africanos comuns"? A religião hebraica, com efeito, deve parte da sua elaboração e consolidação ao grande estadista que foi Moisés, mas tal religião favoreceu a libertação dos hebreus do jugo do Faraó: em que, precisamente, a religião mosaica desfavoreceu os "hebreus comuns"? Os gregos e romanos antigos tinham deuses para todos os gostos: Zeus (Júpiter), certamente, tinha uma postura bem estatal (e ainda mais sua esposa ciumenta e mandona, a "Dona Encrenca" Juno); mas o que dizer de Hermes (Mercúrio), protetor dos comerciantes, mas também de ladrões? Que interesse teria o Estado em promover um deus protetor de foras-da-lei? E Dionísio (Baco), deus do vinho, da volúpia e da sacanagem? E aqueles faunos e sátiros muito chegados a uma, digamos, licenciosidade?

O teólogo perna-de-pau avança em outra cretinice; diz ele que sua "descoberta pode ajudar aqueles que tenham sido oprimidos pela religião de alguma forma". Ora, aos que foram oprimidos pela religião no passado - no tempo da Inquisição, digamos -, pouca serventia terá esta "descoberta" de Atwill, mesmo porque não foi Cristo quem oprimiu ninguém, mas instituições religiosas corrompidas; e não oprimiram mais do que o fizeram instituições laicas ou declaradamente anticristãs, como o Estado nazista e o Estado bolchevista. Os oprimidos pela religião cristã hoje em dia, o serão, também, por corrupções das Igrejas, e não pelos fundamentos da mensagem cristã. A pedofilia na Igreja Católica, por exemplo, é uma opressão, uma chaga e uma praga que, a meu entender, deve ser debelada a qualquer custo, mesmo porque disse Jesus Cristo: "Aquele que abusar de um desses pequeninos, melhor seria que lhe fosse atada ao pescoço uma pedra de moinho e jogado no fundo do mar" (Lucas 17, 2). Suponhamos aqueles que foram ou são oprimidos pela religião devido ao ateísmo: ora, se já não acreditavam em Jesus antes da "descoberta" de Atwill, de que lhes poderá valer a milésima repetição de que Jesus Cristo não existiu, e que foi inventado por tal ou qual motivo? Mas alerte-se: hoje, a cristandade é mais perseguida do que persegue.

Atwill já está sendo contestado por estudiosos de renome. E não especialmente por causa do anticristianismo, mas por causa da indigência histórico-investigativa. O professor James Crossley aponta o seguinte: segundo Atwill o mito de Cristo teria sido criado por Flávio Josefo (e aristocratas romanos) por paralelismo com o Imperador Tito. Ocorre, mostra Crossley, que Tito nasceu no ano de 39 e morreu em 81 d.C. Ora, já antes de Tito assumir o Império, o cristianismo avançava e era perseguido: São Paulo havia escrito suas cartas e feito suas viagens, Nero havia jogado cristãos aos leões e incendiado Roma. Na linha imperial, a Nero sucedeu Galba, a Galba sucedeu Vitélio, a Vitélio sucedeu Vespasiano, a Vespasiano sucedeu o filho, esse Tito, que antes de ser Imperador apaixonou-se pela princesa judia Berenice; malfadada princesa que, aliás, foi imortalizada na tragédia homônima de Racine. Quer dizer, teatro à parte, pelos cálculos errados do historiador perna-de-pau, o mito fundador do cristianismo teria sido elaborado depois que o cristianismo já se irradiava por todo o Império e era duramente perseguido.

Ainda que troncho, o gringo Atwill vai causar "frisson" durante algum tempo. Depois, e é apenas uma questão de tempo, cairá no esquecimento. Mas terá o seu sucesso: um sucesso roubado do brasileiro WJ Solha.

Vejam, "Relato de Prócula" é um excelente romance. Eu escrevi contestando o discurso anti-cristão do livro de Solha, mas sem deixar de reconhecer seu valor literário.  O teólogo/historiador gringo roubou de Solha apenas a teoria, não teve como roubar-lhe o talento e a genialidade. De todo modo, acho que Solha deve processar o malandro.