Blog Rocha 100
“No princípio, criou Deus os céus e a Terra”. Ótima frase para um Blog que navegará 100 fronteiras: dos céus metafísicos à “rude matéria” terrestre. “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Pois, somos também deuses, e criadores. Podemos, principalmente, criar a nossa própria vida, com autonomia: isto se chama Liberdade. Vida e Liberdade são de Deus. Mas, quem é “Deus”? Devotos hebreus muito antigos, referiam-se a Ele apenas por perífrases de perífrases. Para Anselmo de Bec, Ele é “O Ser do qual não se pode pensar nada maior”. Rudolf Otto, diante da dificuldade de conceituá-Lo, o fez precisamente por essa dificuldade; chamou-O “das Ganz Andere” (o Totalmente Outro). Há um sem número de conceitos de Deus. Porém, o que mais soube ao meu coração foi este: “O bem que sentimos intimamente, que intuímos e que nos faz sofrer toda vez que nos afastamos dele”. É de uma jovem filósofa: Catarina Rochamonte.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Saulo, por que me persegues?: A Paixão Judaica e o Caminho de Damasco
De toda variada forma de hostilidade, uma das que mais me abismam é o anti-semitismo/anti-judaísmo por parte de cristãos; sendo Jesus Cristo judeu. E também Nossa Senhora e São José são judeus; e os 12 Apóstolos. Dos Evangelistas, Lucas, que não estava entre os 12, possivelmente era grego; os outros três eram judeus. O Apóstolo dos Gentios, aquele Saulo de Tarso - que, em se tornando Paulo, levou o cristianismo para além dos círculos judaicos -, era judeu. Ademais, os cristãos consideram sagrado não apenas o Novo Testamento, que conta a vida de Jesus, mas também o Velho Testamento, escrito por judeus e que conta a história do povo judeu. Isso, aliás, todo cristão sabe. Como, então pode haver um cristão ante-semita/anti judeu? Eu escrevi um ensaio sobre essa minha perplexidade; consta do primeiro livro que publiquei, intitulado "No Coração de Antígona". Posteriormente, encontrei algumas respostas à minha perplexidade no livro "História dos Judeus", de Paul Johnson. Este esplêndido livro me foi presenteado pelo meu amigo historiador Marcus Odilon, o qual diz, com razão, que o cristianismo é "uma dissidência do judaísmo". Eu aconselho vivamente a leitura desse livro, cujo autor, aliás, é cristão. Recorrendo a Paul Johnson, veremos com maior facilidade a grandeza incomensurável da contribuição dos judeus para a nossa Civilização Ocidental Helênico-Judaico-Cristã. Contribuição realizada tanto como povo como por indivíduos oriundos deste povo, mas assimilados em outras culturas. Com efeito, em qualquer campo do saber os judeus se destacam. Quando é o caso, destacam-se, inclusive, em campos opostos. Exemplo: os judeus tiveram um excepcional papel na construção do capitalismo moderno; ao mesmo tempo, tiveram insuperável destaque no movimento socialista internacional, muito especialmente no marxismo.
Como ilustração do papel dos judeus na Civilização, apresentamos algumas listas com judeus proeminentes:
Na Filosofia:
Fílon de Alexandria - Maimônides - Baruch Spinoza - Moisés Mendelssohn - Karl Marx - Henri Bergson - Ludwig Wittgstein - Emmanuel Levinas - Hanna Arendt - Walter Benjamim.
Na Ciência:
Sigmund Freud - Albert Einstein (Nobel de Física) - Niels Bohr (Nobel de Física) - Albert Sabin (Nobel de Medicina) - Hans Krebs (Nobel de Medicina) - Aaron Klug (Nobel de Química) - Rita Levi-Montalcini (Nobel de Medicina) - Gustav Hertz (Nobel de Física) - Gertrude Elion (Nobel de Medicina) - Rosalyn Sussman Yalow (Nobel de Medicina).
No Cinema/atores:
Elizabeth Taylor - Yves Montand - Charles Bronson - Harrisson Ford - Dustin Hoffman - Kirk Douglas - Michael Douglas - Peter Sellers - Paul Newman - Barbara Streisand.
No Cinema/diretores:
Charles Chaplin - Jerry Lewis - Woddy Allen - Sergei Eisenstein - Fritz Lang - Steven Spielberg - Stanley Kubrick - Alfred Hitchcock - John Huston - Billy Wilder.
Na Música:
Félix Mendelssohn - Gustav Mahler - Leonard Berstein - Yhehudi Menuhin - Arnold Schoenberg - George Gershwin - Bob Dylan - Paul Simon - Anton Rubinstein - Max Bruch.
Na Literatura:
Heirich Heiner - Marcel Proust - Franz Kafka - Paul Heyse (Nobel) - Boris Pasternak (Nobel) - Saul Bellow (Nobel) - Nadine Gordimer (Nobel) - Nelly Sachs (Nobel) - Elias Canetti (Nobel) - Gabriela Mistral (Nobel).
Na Política:
Benjamim Disraeli - Ferdinand Lassale - Eduard Bernstein - Rosa de Luxemburgo - Karl Kautsky - Leon Trotsky - Léon Blum - Daniel Cohn-Bendit - Theodor Herzl - Golda Meir.
Judeus brasileiros:
Sílvio Santos - Dina Sfat - Bussunda - César Lattes - Jacob Gorender - Juca Chaves - Clarice Lispector - Luiz Felipe Pondé - Cora Rónai - Tarso Genro.
Listas de judeus famosos são extensas e divulgadas não só por judeus, mas também por anti-semitas; estes fazem tal divulgação como prova de que os judeus articulam um plano para dominar o mundo. Essa é, aliás, uma propaganda anti-semita antiga, que já rendeu a célebre falsificação "Protocolos dos Sábios do Sião". Hoje, o principal objetivo dos anti-semitas é destruir o pequenino e bravíssimo Estado de Israel.
Cheguei ao fim do introito, necessário, porquanto falo do ponto de vista de um cristão declaradamente amigo do povo judeu; um povo milenarmente perseguido, ainda hoje perseguido.
A Paixão Judaica, a que me refiro no título, é um projeto teatral de WJ Solha. Foi apresentado à Funjope (Fundação de Cultura de João Pessoa) quando o Praefectus da capital da Paraíba era Ricardus e na Funjope mandava um César, o Chicus. É o melhor projeto teatral concebido no Brasil em décadas. De início, foi aceito pelo Ricardus e pelo Chicus; depois, por politiquices eleitoreiras, foi censurado, vetado e crucificado.
Depois que teve seu projeto vetado pela Funjope, Solha o publicou no site Eltheatro - mantido pelo saudoso teatrólogo Elpídio Navarro, e que foi o melhor site de cultura do Brasil -. Uma coisa impressionante: pela concepção dramática, pelos figurinos, pelas locações. Imaginem: o Ponto de Cem Réis, centro de João Pessoa, representa Jerusalém ocupada pelas tropas romanas do Imperador Tibério César, e lá no alto do Paraíba Palace Hotel um imenso retrato do Imperador, que é... Hitler. E muitos símbolos romanos erguem-se opressores pela praça, são as... suásticas nazistas. Com efeito, faz um poderoso efeito. O que se pretende, obviamente, é demonstrar que ao tempo dos acontecimentos narrados nos Evangelhos, Jerusalém estava submetida a odiosa opressão. O drama é elaborado de um ponto de vista judaico. E esse ponto de vista me comove, como cristão.
No meu ensaio já referido, refutei uma das alegações que sustentam a hostilidade de cristãos para com judeus; esta: "Os judeus mataram Jesus". Essa é uma das generalizações mais perversas da história. E é insustentável. Vejam: sendo Jesus Cristo judeu, tendo passado toda a sua vida entre judeus, tanto os que o amaram quanto os que o odiaram teriam de ser judeus.
Judeus do Sinédrio, fariseus, zelosos quanto à letra da lei mosaica e ciosos da autoridade do Templo, agiram para destruir o movimento dissidente liderado por Jesus. Nesse mesmo Sinédrio, havia judeus que amavam a Cristo, como foi o caso de Nicodemos e de José de Arimateia. No julgamento de Cristo, numa multidão ocasional, uma maioria de judeus preferiu Barrabás a Jesus. Alguns dias antes, outra multidão de judeus recebera Cristo com festa e júbilo, na entrada triunfal do Rabi de Nazaré na capital da província. A execução de Jesus Cristo se deu por decisão da autoridade romana, mas não foram os romanos que mataram Cristo; nem eles são disso acusados. Mas os judeus foram, e são, acusados.
Vejam ainda - e parece-me que é isso que o drama pensado por Solha deixará insofismável quando for encenado -: os rebeldes nacionalistas judeus, chamados zelotes, tinham lá suas razões para preferir Barrabás a Cristo, pois Barrabás seria também um zelote, e dos mais destemidos. Os muitos judeus que amavam a Cristo seriam de índole mais pacífica e tímida; dificilmente conseguiriam enfrentar a disposição aguerrida dos zelotes que gritavam a favor de Barrabás.
Vejamos por comparação: na antiga Atenas, muito antes de Cristo, outro homem bom foi julgado e condenado. Chamava-se Sócrates e era filósofo. Foi na Ágora, em votação limpa e democrática. Com resultado apertado, os gregos atenienses condenaram o sublime Sócrates à morte pela ingestão do veneno cicuta. Porém, felizmente, o veneno da generalização não pesou como difamação perene sobre os gregos e a democracia. Os gregos e a democracia nunca foram genericamente responsabilizados pela morte de Sócrates.
WJ Solha não é cristão; se é judeu, não sei. Seja como for, A Paixão Judaica, quando encenada, ajudará a desfazer uma infâmia milenar; que desonra os cristãos que dela fazem uso.
A peça de Solha é, mais ou menos, o "Relato de Prócula" passado para o teatro. Não o romance todo, mas apenas o pequeno trecho que reproduz o "Relato" de Cláudia Prócula, esposa de Pôncio Pilatos. Em posts anteriores já considerei a concepção deste "Relato", em que se diz que Jesus Cristo foi preparado pelos romanos como agente dos interesses do Império, para debelar a rebeldia dos judeus (teoria furtada pelo teólogo/historiador norte-americano Joseph Atwill). Então, como se justifica meu entusiasmo por uma peça teatral baseada em uma concepção anti-cristã?
Vejam: na concepção de Solha, no "Relato" de Cláudia Prócula, Jesus Cristo tem existência real e é tal e qual está nos Evangelhos Canônicos; a diferença é que teria sido treinado desde menino pelos astuciosos romanos (especialmente pelo judeu-helenizado Fílon de Alexandria) para aquele papel; para servir à "Pax Romana". Não me convence, porém, se foi assim, não vejo nenhum prejuízo para o cristianismo. Já escrevi coisa parecida sobre aquele livro de Dan Brown, "O Código Da Vinci", onde o grande escândalo é que Jesus Cristo teria se casado com Maria Madalena e tido filhos. Igualmente não me convence; porém, se foi assim, acho que fizeram muito bem, e daqui, da distância do tempo, parabenizo o casal e faço um brinde. Por que eu haveria de ficar menos cristão ao descobrir que Jesus foi feliz nos braços de Madalena, com os seus filhinhos em volta fazendo algazarra?
SAULO NO CAMINHO DE DAMASCO - O judeu Saulo perseguia os cristãos. No caminho de Damasco caiu do cavalo. E ouviu uma voz: "Saulo, Saulo! Por que me persegues?". Saulo perguntou quem era, e ouviu: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues" (Atos 9, 4 e 5).
Pois, Saulo aprendeu que judeus não deviam perseguir cristãos, e que em cada cristão está o próprio Cristo. Pois, com maior razão e ênfase, será ensinamento de Jesus Cristo que cristãos não devem perseguir judeus. Nem muçulmanos, nem budistas, nem os irmãos da Umbanda e Candomblé, nem a animada turma da Nova Era de Aquarius, nem os ateus e nem ninguém.
Mantendo cada um a sua fé, crença, doutrina ou filosofia; é preciso entender o outro. E conviver. A Paixão Judaica será mais um passo no caminho dessa compreensão e convivência.
Questionado por Saulo sobre o que ele, Saulo, deveria fazer, ordenou Jesus: "Levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer" (Atos 9, 6).
Para WJ Solha, "entrar na cidade" será montar sua Paixão Judaica no centro da cidade de João Pessoa, no Ponto de 100 Réis. O que convém fazer cabe a todos que amam a arte e a liberdade de expressão: vamos fazer uma campanha, vamos perturbar prefeito e governador, Funjope e Espaço Cultural, e o que for preciso. Vamos reviver Jerusalém.
Eu estarei na platéia, mas vou furar o script. Não que vá pedir a morte para Barrabás, mas clamarei:
VIDA ETERNA! CRISTO JESUS!
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
"O Messias de César": para falar mal do cristianismo, teólogo sem-vergonha dos Estados Unidos rouba o 'Relato de Prócula', do escritor brasileiro WJ Solha
Joseph Atwill, o gringo malandro, divulga sua "descoberta" através de livro, vídeos e palestras que recebem o nome genérico de "O Messias de César", sempre dizendo que tem novas e retumbantes evidências guardadas para mais tarde. Eu estou curioso para ver até onde vai a desfaçatez do sem-vergonha. No que até agora vem sendo divulgado ele não acrescenta nada de substancial à engenhosa história engendrada por Solha, inclusive a indicação de Flávio Josefo como principal artífice do mito do líder judeu pacifista. Deve-se esclarecer, todavia, que Flávio Josefo não foi propriamente um aristocrata romano, mas um judeu-romanizado de Alexandria, erudito/filósofo de grande envergadura.
A história contada por Atwill, mesmo por ser roubada de fonte que eu já conhecia, não me surpreendeu nem assustou; todavia, surpreendeu-me a sua petulância e o volume de tolices que ele consegue despejar nas suas declarações midiáticas.
O historiador de araque afirma ser "uma questão de tempo até que sua teoria seja aceita". Primeiramente, a teoria não é dele, é de WJ Solha. Depois, são muitas e muito velhas as teorias negando a existência de Cristo ou dizendo que o Cristo verdadeiro não é aquele dos Evangelhos Canônicos. Por engenhosa que seja, a teoria de Solha, furtada por Atwill, não haverá de abalar o mundo mais do que as milhares de outras teorias anti-cristãs. Como se sabe, o cristianismo resistiu até mesmo ao ateísmo marxista, que chegou a dominar metade do mundo. O cristianismo resistiu ao feroz anti-cristianismo nazista, que disputou com o marxismo o domínio do mundo. Por que será então que esse teólogo besta acha que com uma teoria furtada vai destruir o cristianismo?
Vejamos outras petulâncias e bobagens desse teólogo de meia-tigela. Ele diz, segundo está registrado em vários portais (Yahoo Brasil, Galileu, Gospel Prime, etc.):
"Apresento meu trabalho com muito cuidado, pois não quero atingir os cristãos. Mas isso é importante para nossa cultura, pois os cidadãos precisam saber que governos criam histórias e falsos deuses. Isto é feito para criar uma ordem social contrária aos interesses do povo comum".
Nós outros, cristãos, não somos tão débeis quanto esse babaca pensa que somos. Eu mesmo dispenso suas delicadezas e já li muito ataque ao cristianismo mais duro do que o dele: sem me abalar. Agora, supor que religiões são, principalmente, produto de artimanhas de governos malvados "para criar uma ordem social contrária aos interesses do povo"; isto é uma imbecilidade que abala minha paciência. Vejamos: os Tupis-Guaranis cultuaram Tupã, Jaci e outras divindades: tal culto não teria sido produto de necessidades espirituais desse povo, mas tão somente uma artimanha dos caciques para contrariar os interesses dos "índios comuns"? Os povos africanos cultuaram (e ainda hoje remanesce o culto na Umbanda e Candomblé) várias entidades representativas das forças da natureza (Oxóssi, Yansã, Xangô...): isso nada tem a ver com a simbiose desses povos com a natureza, não expressam imperiosas necessidades psicológicas e sócio-culturais, sendo apenas uma artimanha dos sobas africanos contra os interesses dos "africanos comuns"? A religião hebraica, com efeito, deve parte da sua elaboração e consolidação ao grande estadista que foi Moisés, mas tal religião favoreceu a libertação dos hebreus do jugo do Faraó: em que, precisamente, a religião mosaica desfavoreceu os "hebreus comuns"? Os gregos e romanos antigos tinham deuses para todos os gostos: Zeus (Júpiter), certamente, tinha uma postura bem estatal (e ainda mais sua esposa ciumenta e mandona, a "Dona Encrenca" Juno); mas o que dizer de Hermes (Mercúrio), protetor dos comerciantes, mas também de ladrões? Que interesse teria o Estado em promover um deus protetor de foras-da-lei? E Dionísio (Baco), deus do vinho, da volúpia e da sacanagem? E aqueles faunos e sátiros muito chegados a uma, digamos, licenciosidade?
O teólogo perna-de-pau avança em outra cretinice; diz ele que sua "descoberta pode ajudar aqueles que tenham sido oprimidos pela religião de alguma forma". Ora, aos que foram oprimidos pela religião no passado - no tempo da Inquisição, digamos -, pouca serventia terá esta "descoberta" de Atwill, mesmo porque não foi Cristo quem oprimiu ninguém, mas instituições religiosas corrompidas; e não oprimiram mais do que o fizeram instituições laicas ou declaradamente anticristãs, como o Estado nazista e o Estado bolchevista. Os oprimidos pela religião cristã hoje em dia, o serão, também, por corrupções das Igrejas, e não pelos fundamentos da mensagem cristã. A pedofilia na Igreja Católica, por exemplo, é uma opressão, uma chaga e uma praga que, a meu entender, deve ser debelada a qualquer custo, mesmo porque disse Jesus Cristo: "Aquele que abusar de um desses pequeninos, melhor seria que lhe fosse atada ao pescoço uma pedra de moinho e jogado no fundo do mar" (Lucas 17, 2). Suponhamos aqueles que foram ou são oprimidos pela religião devido ao ateísmo: ora, se já não acreditavam em Jesus antes da "descoberta" de Atwill, de que lhes poderá valer a milésima repetição de que Jesus Cristo não existiu, e que foi inventado por tal ou qual motivo? Mas alerte-se: hoje, a cristandade é mais perseguida do que persegue.
Atwill já está sendo contestado por estudiosos de renome. E não especialmente por causa do anticristianismo, mas por causa da indigência histórico-investigativa. O professor James Crossley aponta o seguinte: segundo Atwill o mito de Cristo teria sido criado por Flávio Josefo (e aristocratas romanos) por paralelismo com o Imperador Tito. Ocorre, mostra Crossley, que Tito nasceu no ano de 39 e morreu em 81 d.C. Ora, já antes de Tito assumir o Império, o cristianismo avançava e era perseguido: São Paulo havia escrito suas cartas e feito suas viagens, Nero havia jogado cristãos aos leões e incendiado Roma. Na linha imperial, a Nero sucedeu Galba, a Galba sucedeu Vitélio, a Vitélio sucedeu Vespasiano, a Vespasiano sucedeu o filho, esse Tito, que antes de ser Imperador apaixonou-se pela princesa judia Berenice; malfadada princesa que, aliás, foi imortalizada na tragédia homônima de Racine. Quer dizer, teatro à parte, pelos cálculos errados do historiador perna-de-pau, o mito fundador do cristianismo teria sido elaborado depois que o cristianismo já se irradiava por todo o Império e era duramente perseguido.
Ainda que troncho, o gringo Atwill vai causar "frisson" durante algum tempo. Depois, e é apenas uma questão de tempo, cairá no esquecimento. Mas terá o seu sucesso: um sucesso roubado do brasileiro WJ Solha.
Vejam, "Relato de Prócula" é um excelente romance. Eu escrevi contestando o discurso anti-cristão do livro de Solha, mas sem deixar de reconhecer seu valor literário. O teólogo/historiador gringo roubou de Solha apenas a teoria, não teve como roubar-lhe o talento e a genialidade. De todo modo, acho que Solha deve processar o malandro.