Blog Rocha 100

“No princípio, criou Deus os céus e a Terra”. Ótima frase para um Blog que navegará 100 fronteiras: dos céus metafísicos à “rude matéria” terrestre. “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Pois, somos também deuses, e criadores. Podemos, principalmente, criar a nossa própria vida, com autonomia: isto se chama Liberdade. Vida e Liberdade são de Deus. Mas, quem é “Deus”? Devotos hebreus muito antigos, referiam-se a Ele apenas por perífrases de perífrases. Para Anselmo de Bec, Ele é “O Ser do qual não se pode pensar nada maior”. Rudolf Otto, diante da dificuldade de conceituá-Lo, o fez precisamente por essa dificuldade; chamou-O “das Ganz Andere” (o Totalmente Outro). Há um sem número de conceitos de Deus. Porém, o que mais soube ao meu coração foi este: “O bem que sentimos intimamente, que intuímos e que nos faz sofrer toda vez que nos afastamos dele”. É de uma jovem filósofa: Catarina Rochamonte.

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sábado, 6 de fevereiro de 2016

"Agora é cinza"

rocha100.blogspot.com.br


Durante muitos anos, desde o Primeiro Reinado, o PT se esbaldou nos carnavais em blocos muito animados do tipo Mensalão e Petrolão. Agora, a fantasia rasgou e o que restou das alegorias produzidas nas oficinas da corrupção foi desemprego, inflação e recessão. O Rei Momo está enroscado, assustado, esperando bater à sua porta um imenso boneco de carnaval: o Japonês da Federal. A Rainha Moma fica só fazendo hora, cantando "ai, ai, ai, ai; tá chegando a hora...". Pro PT, o carnaval já acabou. Como se diz no samba de Bide e Marçal, tão cantado em velhos carnavais: "Agora é cinza".

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Punhos erguidos contra a democracia. Ou: o PT não está, não pode estar, não deve estar e não estará acima da Lei

Lá atrás, quando era oposição, o PT combatia a corrupção. No poder, esse combate foi relativizado. O PT aliou-se a políticos anteriormente estigmatizados, pelo próprio PT, como exemplos máximos de corrupção. E também - como acaba de ser provado, comprovado, julgado, condenado e sentenciado - o PT meteu-se em corrupção, sendo o mensalão o caso emblemático. Todavia, o PT manteve-se sempre implacável com os corruptos seus adversários. Surpreendentemente, porém, se o corrupto for do próprio PT, não será criticado e nem expurgado; será glorificado. É impressionante: os intelectuais marxistas do PT conseguem demonstrar, pela lei dialética da "negação da negação", que ladrão, em sendo do PT, é herói, não é ladrão.

O que se encontra por trás dessa extravagância ridícula é algo tenebroso: o FANATISMO. Fanatismo que produz a sanha autoritária que coloca o partido acima do Estado, da Lei, da Justiça, dos juízos de Racionalidade e de todas as evidências da Verdade. Historicamente, tem sido essa a regra tanto para os partidos da esquerda autoritária (bolchevista) quanto para os partidos da direita autoritária (nazi-fascista).

Presos por corrupção, os chefes petistas José Dirceu e José Genoíno erguem o punho; um grupo de fanáticos petistas repete o gesto. Tal gesto remete a revolução e rebeldia. No caso presente, é uma pantomima. Lá mais atrás, nos "anos de chumbo", Dirceu e Genoíno foram revolucionários: ergueram punhos e armas contra a ditadura militar. Hoje, denunciados, indiciados, julgados e condenados na vigência plena do Estado Democrático de Direito, só podem estar erguendo os punhos contra a Democracia.

Delúbio Soares não foi herói nos "anos de chumbo", mas imbuiu-se do espírito de martírio típico dos heróis. Ele dará a vida pelo partido, no qual supõe toda a autoridade do mundo. É comovente. Nem por isso o tesoureiro do mensalão será menos corrupto.

Henrique Pizzolato, o petista que fugiu para a Itália, nem foi herói nem tem espírito de sacrifício, mas tentou soar heroico, em uma carta de cretinice alarmante. Vejam um trecho:

"Por não vislumbrar a mínima chance de ter julgamento afastado de motivações político-eleitorais, com nítido caráter de exceção, decidi consciente e voluntariamente fazer valer o meu legítimo direito de liberdade para ter um novo julgamento, na Itália, em um tribunal que não se submete às imposições da mídia empresarial...". 

A condenação desse bravo amante da liberdade se deu com placar de 11 a 0 (onze a zero) pelos crimes de corrupção passiva e peculato e 10 a 1 (dez a hum) pelo crime de lavagem de dinheiro. Isso em um STF cuja maioria de juízes foi indicada pelo presidente petista Lula e pela presidenta petista Dilma. Curiosamente, o votinho de absolvição que Pizzolato teve no caso da lavagem de dinheiro foi dado por um ministro indicado pelo presidente Collor de Mello, o Marco Aurélio. Quer dizer, então, que Lula e Dilma escolheram a dedo ministros dispostos a prejudicar Henrique Pizzolato? Como se explica esse ódio de Lula e Dilma ao pobre Pizzolato?

José Dirceu também divulgou uma carta, da qual destaco dois trechos:

"... a cobertura da imprensa foi estimulada e estimulou votos e condenações, acobertou violações dos direitos humanos e garantias individuais..."; "... serei preso político de uma democracia sob pressão das elites..".

Dirceu diz isso como se o PT não tivesse espaço na imprensa. Mas o PT tem largo espaço na imprensa desde o tempo em que era oposição. Saber usar muito bem esse espaço foi, aliás, uma das condições para chegar ao poder. Sendo que o PT tem imenso espaço na imprensa (mídia em geral), o que se pode entender da fala de Dirceu é que o que o PT quer não é mais espaço, mas todo o espaço; quer submeter toda a mídia ao seu comando. A democracia brasileira estar sobre pressão das elites é possível, porque é natural de toda democracia ser submetida a pressões: das elites, dos trabalhadores, dos estudantes, dos movimentos sociais, dos excluídos, das classes médias, dos intelectuais, dos artistas, dos desempregados, etc. O que não falta, nem deve faltar, em democracia é pressão. Mas por que a democracia durante o governo do PT seria especialmente sensível à pressão das elites? Por que Lula e Dilma escolheriam tão zelosamente para o STF ministros predispostos a se submeterem aos interesses das elites? Também será difícil entender que seja preso político alguém que em plena vigência de regime democrático é preso por corrupção. Todavia, se for realmente o caso, o Brasil já tem o preso político deputado Natan Donadon. Já teve também o preso político ex-governador José Roberto Arruda, que passou uns tempos na Papuda. Até o Paulo Maluf foi preso político por breve temporada.

A corrupção do mensalão foi uma corrupção maior do que as outras, com objetivos estratégicos de poder, porém, essencialmente, corrupção vulgar. Os punhos erguidos de Genoíno e Dirceu na chegada à PF paulista foram uma tentativa de usar um heroísmo passado - de punhos erguidos e armas em punho - para envernizar a madeira podre da corrupção medíocre de hoje. Da mesma forma, a reivindicação da condição de preso político. Essa heroica condição se contrapõe à deprimente condição de corrupto preso. E eles têm direito a essas ilusões.

Os revolucionários marxistas-leninistas dos "anos de chumbo" eram tão idealistas e destemidos quanto eram violentamente autoritários. Uma perspectiva que se abre ao desespero dos chefes petistas presos é arrastar o conjunto dos militantes ao caminho do velho autoritarismo revolucionário para impor a versão do partido contra as evidências da Verdade, contra os juízos de Racionalidade, contra a Justiça, contra a Lei e contra o Estado Democrático de Direito.

É uma aventura perigosa; e é, para os fanáticos, uma tentação.



sábado, 21 de setembro de 2013

Fala de Miquéias, nosso candidato a Presidente do Brasil: "As suas mãos fazem diligentemente o mal; assim demanda o príncipe, e o juiz julga pela recompensa, e o grande fala da corrupção da sua alma, e assim todos eles tecem o mal"

Se aceitar nosso convite e for mesmo candidato, Miquéias será, inapelavelmente, eleito Presidente da República. Ele não pode demorar a responder, por causa dos prazos eleitorais, sendo que Miquéias não se filiou ainda a nenhum partido. Dificilmente algum partido grande lhe cederá a legenda, mas sempre  se poderá contar com um desses partidos nanicos. Se Miquéias ficar com muito pouco tempo no horário eleitoral, bastará repetir Enéas e dizer: "Meu nome é Miquéias". Nas ruas, seu discurso incandescente, pleno da "ira divina", atrairá as multidões. Esse discurso, nosso candidato traz na ponta da língua, pois lhe saiu da boca, por inspiração de Deus, a cerca de 700 anos antes de Cristo; cuja vinda ao mundo, aliás, profetizou. Digo "nosso candidato" porque entendo que a Polícia Federal, ao batizar esta mais recente Operação contra a corrupção de "Operação Miqueias", estava conclamando os serviços deste profeta. Sei que não será fácil convencer Miquéias a abandonar seu milenar repouso junto ao Altíssimo, no Seio de Abraão. Porém, é preciso convencê-lo que, depois que a Justiça brasileira se dobrou ao poder dos corruptos mensaleiros, só ele, com a sua flama incomparável, poderá salvar o Brasil.

Miquéias é um dos chamados "profetas menores". Mas no Brasil ele será o maioral. Esse profeta tem uma fala bem famosa, justamente aquela em que é anunciada a vinda do Messias, que haveria de nascer em Belém de Judá. Vejam (conforme está em www.bibliaonline.com.br):

E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade.
Miquéias 5:2



Anunciando um bem futuro, Miquéias deplorava a iniquidade da sua época da forma mais devastadora. Denunciava, como consta da "Wikipédia" (erudição Google), vejam só: "os governantes, os chefes, os ricos de Jerusalém e Samaria" (pobres cidades: não amarram as chuteiras de Brasília). E também atacava os que "estavam roubando o povo através da língua enganosa" (vocês aí lembram de algum político muito poderoso do Brasil que tem uma língua enganosa?). E combateu, ainda: "os ganhos imorais, a maldade planejada, a balança desonesta e o crime organizado" (lembrem os senhores que o esquema do mensalão foi descrito pelo Procurador Geral da República como uma "sofisticada organização criminosa").

Mas deixemos que fale o nosso candidato (vocês podem ir direto à Biblia Online, já por mim indicada, mas adianto uns trechos, aos quais acrescento, entre parênteses, algum comentário); e veremos que não existe nenhum brasileiro decente que possa deixar de votar neste magnífico Profeta:



Ai daqueles que nas suas camas intentam a iniqüidade, e maquinam o mal; à luz da alva o praticam, porque está no poder da sua mão!
E cobiçam campos, e roubam-nos, cobiçam casas, e arrebatam-nas; assim fazem violência a um homem e à sua casa, a uma pessoa e à sua herança.

Miquéias 2:1-2

(no Brasil, quem é que está com o poder na mão?)


Se houver alguém que, andando com espírito de falsidade, mentir, dizendo: Eu te profetizarei sobre o vinho e a bebida forte; será esse tal o profeta deste povo.
Miquéias 2:11

(o vinho é Romanée-Conti, a bebida forte é a caninha 51)


Ouvi agora isto, vós, chefes da casa de Jacó, e príncipes da casa de Israel, que abominais o juízo e perverteis tudo o que é direito,
Edificando a Sião com sangue, e a Jerusalém com iniqüidade.
Os seus chefes dão as sentenças por suborno, e os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus profetas adivinham por dinheiro; e ainda se encostam ao Senhor, dizendo: Não está o Senhor no meio de nós? Nenhum mal nos sobrevirá.

Miquéias 3:9-11

(quem será, no Brasil, o Senhor Protetor dos corruptos? E qual será o instituto de pesquisa que adivinha por dinheiro?)

As suas mãos fazem diligentemente o mal; assim demanda o príncipe, e o juiz julga pela recompensa, e o grande fala da corrupção da sua alma, e assim todos eles tecem o mal.
O melhor deles é como um espinho; o mais reto é pior do que a sebe de espinhos; veio o dia dos teus vigias, veio o dia da tua punição; agora será a sua confusão.

Miquéias 7:3-4

(no Brasil, é difícil saber quem é o melhor deles; e ainda mais difícil saber quem é o pior)

domingo, 21 de outubro de 2012

Eleito, Luciano Cartaxo terá de enfrentar a cúpula dirceuzista, que exigirá coonestação à campanha para desmoralizar o STF e restabelecer a censura dos tempos da ditadura

O PT está disputando o segundo turno em algumas capitais e outras metrópoles. Em João Pessoa/PB a vitória é quase certa. O provável futuro prefeito, Luciano Cartaxo, notoriamente, é pessoa decente e político competente. Foi vereador dos mais atuantes, um vice-governador correto e vem desempenhando muito bem o cargo de deputado estadual. Para ser candidato, travou uma boa luta; foi tenaz. Uma vez candidato, conseguiu fazer a melhor e mais natural aliança, com o prefeito rebelde Luciano Agra. A se confirmar a vitória indicada pelas pesquisas, estará em condições de fazer uma boa administração. E eu, certamente, desejo que a faça.

Isso posto, afirmo que as pessoas decentes e democratas terão o direito - e mesmo o dever - de cobrar do prefeito eleito que não permita que sua eleição venha a servir de combustível para a campanha autoritária e indecente que o PT dirceuzista prepara e, velada ou diretamente, anuncia para depois do segundo turno eleitoral.

Tal campanha visa dois objetivos mais imediatos: 1) desmoralizar o Supremo Tribunal Federal; 2) restabelecer no Brasil a censura dos tempos da ditadura.

Já falei sobre isso em posts anteriores e voltarei a falar em posts seguintes, mesmo porque a campanha pró-corruptos e pró-censura dos fanáticos dirceuzistas está perto de incendiar o país.

O projeto do petismo totalitário - como já disse, comandado por gente como Zé Dirceu e Rui Falcão - para calar a mídia independente é coisa velha; tão velha que já mudou de nome umas tantas vezes: "controle social da mídia", "ley de los medios", "marco regulatório", etc.  As manobras para desmoralizar o STF são, todo mundo sabe, motivadas pela condenação dos corruptos mensaleiros petistas no julgamento da Ação Penal 470 (que pessoas politicamente incorretas, como é o meu caso, insistem em chamar de MENSALÃO).

Como todo mundo viu, um dos mais fortes obstáculos ao infame projeto de restabelecimento da censura dos tempos da ditadura foi a resistência da Presidente Dilma, que reduziu os neo-censores com esta frase tão feliz: "Controle da mídia, só se for o controle remoto".

Tão firme naquela ocasião - foi logo no início do seu mandato -, seguramente a Presidente não haverá de servir de instrumento para o corrupto condenado Zé Dirceu e seus sectários atacarem as instituições democráticas.

Também não acredito que a maioria dos militantes petistas - gente democrática e decente - se deixará arrastar pela seita dirceuzista para sair pelas ruas clamando impunidade para corruptos; coisa do tipo: "CORRUPTOS UNIDOS, JAMAIS SERÃO VENCIDOS!".

Tem muita gente decente que gosta de Zé Dirceu, e ainda mais de Zé Genoíno. A este, eu mesmo declaro sincera simpatia, e entendo (concordando com uma minha prima muito querida, petista fundadora em São Paulo e amiga de Genoíno) que seu erro foi ter se deixado manipular pelo Zé Dirceu. Mas todos dois merecerão lá as simpatias de muitos; pelo passado de lutas, etc. Ocorre que os corruptos mensaleiros, petistas e não petistas, foram denunciados pelo Ministério Público, investigados e condenados pela mais alta Corte de Justiça em um processo que está chegando ao fim após quase uma década. Tudo dentro dos conformes, como se diz popularmente. Ou seja, na estrita observância do chamado "devido processo legal".

O juízo comum sabe, faz tempo, que o mensalão existiu e que o Zé Dirceu mandava muito naquilo tudo. Agora, o juízo técnico, togado, constitucionalmente autorizado, afirma, por larga margem, o mesmo que já sabia o juízo comum. Que venham cúmplices de Zé Dirceu difamar o STF para tentar livrar a cara de Zé Dirceu, é de causar espécie. Que venham pessoas decentes, mesmo que movidas por admiração e amizade, fazer o mesmo, é de dar pena.

Alguém que, além de ser decente e democrata, exerce um mandato parlamentar e está prestes a ser vitorioso numa disputa por um mandato executivo, como é o caso de Luciano Cartaxo, não poderá, como primeiro ato da sua vitória, coonestar ações contra as instituições democráticas.

Esse será o primeiro desafio político que Cartaxo, se for eleito, terá de enfrentar. A sua servidão e cumplicidade será exigida pela cúpula dirceuzista. Seu estofo terá de se mostrar. Sua carreira, o que ele significará para o seu partido, para os pessoenses e paraibanos e, principalmente, para a Democracia brasileira, dependerá do resultado desse inevitável confronto.

Washington Alves da Rocha - João Pessoa, 21/10/2012.


domingo, 14 de outubro de 2012

Eudes Hermano toma as dores dos corruptos mensaleiros do PT. Dá gosto ver, mas os argumentos são ruins de doer

Divulguei o post anterior - sobre o corrupto condenado Zé Dirceu - também via e-mail, por isso, além dos comentários no espaço próprio do Blog, recebi outros no meu e-mail pessoal. Em geral, mensagens curtas, como o excelente comentário de Romeu de Carvalho, dizendo que o Caixa 2 é um erro imenso, mas que é preciso investigar todos os que fazem isso no Brasil. Concordo plenamente, apenas acrescentando que a corrupção braba e cabeluda do mensalão comandado por Zé Dirceu foi muito além do Caixa 2, como, aliás, o STF já deixou claro.

Uma das mensagens enviadas ao meu e-mail foi um tanto longa, e um tanto raivosa. Escreveu-a Eudes Hermano, pessoa por quem tenho estima e admiração. Eudes é um destacado intelectual multimídia; porém, ai porém...: deu-se o caso que a paixão sectária distorceu-lhe o juízo e o fez elaborar argumentos muito ruins. Vejam resumos dos argumentos (ou vejam a mensagem de Eudes na íntegra, que está publicada em manchete neste Portal 100 Fronteiras), acompanhados das minhas contra-respostas.

Diz Eudes que "o buraco é mais em baixo". 
Com efeito, é possível que o buraco do mensalão seja mais em baixo; mas também é possível que seja mais em cima.

Diz que o problema da corrupção não está resolvido no Brasil "com a condenação dos ex-líderes petistas".
Também o impeachment do presidente Collor de Mello não resolveu. A prisão do juiz Nicolau não resolveu. A destituição e prisão (por pouco tempo, infelizmente) do corrupto governador Arruda, no chamado "mensalão do DEM", igualmente não resolveu. As condenações e rápida prisão de Paulo Maluf não resolveram. A recente condenação deste mesmo Maluf a devolver 21 milhões de reais aos cofres públicos não resolverá. Enfim, não há perspectiva de erradicação definitiva da corrupção no Brasil; nem por isso haverá a Nação de deixá-la prosperar.

Diz que a corrupção no Brasil é muito antiga e indica as malversações havidas quando da construção do Porto de Cabedelo, aqui na Paraíba, como um marco.
De fato, a corrupção no Brasil é antiga, vem de bem antes da construção do referido porto. O Padre Antônio Vieira dava largas notícias de corrupção desenfreada já nos tempos da colonização. Mas nem por ser velha deverá a corrupção ser aceita ou banalizada.

Diz Eudes Hermano, certamente para desmerecer o Supremo Tribunal Federal, que o ministro Gilmar Mendes é "escravagista".
Não me consta. Porém, ainda que o ministro Gilmar fosse escravagista, não foi unicamente o voto dele que condenou "os ex-líderes petistas". Seria o ministro Joaquim Barbosa também escravagista? E as ministras Carmem Lúcia e Rosa Weber seriam escravagistas? Igualmente escravagistas seriam os ministros Cezar Peluso, Luiz Fux, Marco Aurélio de Mello, Celso de Mello e Ayres Brito? E até mesmo os ministros Dias Toffoli e Ricardo Levandowski, que condenaram alguns "ex-líderes petistas", seriam escravagistas?

Eudes cobrou o julgamento do "mensalão mineiro" e pediu condenação para o "mensalão do DEM".
Concordo, e fico até feliz com este ímpeto anti-corrupção de Eudes. A questão é que tal ímpeto é seletivo, excluindo a corrupção de petistas.

Diz Eudes, certamente para desmerecer o STF, que a justiça brasileira não mudou, continuando "a mesma dos tempos dos coronéis".
Vejamos: a justiça dos tempos dos coronéis teria aprovado o sistema de cotas nas universidades? Teria aprovado a demarcação contínua da reserva indígena Raposa-Serra do Sol? Teria eleito um negro para Presidente da mais alta Corte?

Diz também isto: "O PT não vai todo pra cadeia antes por ser esta insinuação uma idéia doentia e preconceituosa de quem foi derrotado em seu projeto pessoal político...".
Pareceu-me pessoal, mas não levo a mal. Todavia não insinuei, apenas criei uma imagem para alertar os petistas democratas e honestos do seguinte: os dirceuzistas fanáticos estão em campanha contra o STF e a mídia oposicionistas, querem submeter o STF e restabelecer a censura dos tempos da ditadura, esta campanha antidemocrática, autoritária, liberticida deverá, segundo indicam líderes petistas inconformados com a condenação dos petistas mensaleiros, ser atiçada depois do segundo turno eleitoral; então, petistas democratas e decentes, não entrem na canoa furada de fazer da defesa de corruptos bandeira de luta, não se submetam aos arreganhos totalitários da seita dirceuzista, saiam fora da ilegalidade e indecência que se desenha. Agora, quem quiser ficar dentro, que vença a luta contra a legalidade democrática e a liberdade de expressão; ou que se lasque.

E isto: "O PT é um partido de gente honesta como eu".
Nunca duvidei da honestidade de Eudes Hermano e conheço muitos outros petistas tão honestos quanto ele. Parece-me apenas, agora, que Eudes é tão honesto quanto ingênuo. Se todos os petistas honestos forem tão ingênuos quanto o Eudes, aí não tem jeito, o Zé arrasta o PT (em tempo: Zé Dirceu não é um ex-líder do PT, é um poderoso líder do PT).

Por fim, Eudes diz que o PT é campeão de votos no Brasil e que "o resto é inveja de quem o PT não aceita mais".
Inveja do PT, conscientemente, não tenho. Posso até ter saudades. Todavia, como demonstrou Schopenhauer e como é já de conhecimento ordinário da psicologia e da psicanálise, os motivos humanos são nebulosos, turvos, absconsos. Por exemplo: por que raios de motivos é Eudes Hermano tão encantado com corruptos mensaleiros petistas a ponto de perder o senso e arriscar-se em argumentos chinfrins para lhes tomar as dores?




terça-feira, 25 de setembro de 2012

Artistas e intelectuais preparam manifesto em defesa do grande Zé Dirceu do mensalão

Antigamente, artistas e intelectuais brasileiros tinham o bom costume de assinar manifestos contra a censura, contra a repressão, contra a ditadura. Agora preparam um manifesto em favor de corruptos mensaleiros.

É um troço esquisito: segundo se anuncia, está sendo articulado, por amigos de José Dirceu, um abaixo assinado com mais de 200 assinaturas. Os intelectuais dirceuzistas têm até um porta-voz, que é o cineasta Luiz Carlos Barreto. Eis o que o porta-voz reporta:

"Não reivindicamos a inocência de ninguém. Mas esperamos que os ministros do STF saibam punir quem tem de ser punido e inocentar quem tem direito à inocência".

Não seria de se esperar o contrário. Mas tem caroço nesse angu. Caroço saliente. É o seguinte: Barretão, que é amigão do peito de Zé Dirceu, está indicando que os dirceuzistas se darão por satisfeitos se os idealistas do PT escaparem da degola; os corruptos mensaleiros de direita podem se lascar. Na pior das hipóteses, os dirceuzistas, em se salvando Zé Dirceu, deixarão que se lasquem também os mensaleiros petistas menores.

Deve ser mais ou menos isso. Ao certo não se pode saber, porque o raio do manifesto não aparece, seus articuladores apenas invadiram a internet com balões de ensaio. Um dos blogueiros que repercutiu foi o Ricardo Kotscho, amigão do Lula e do Dirceu. O título do post em que Kotscho trata do assunto é o seguinte:

"Em defesa do amigo e cidadão José Dirceu"

Mas, no manifesto, avisa Kotscho, o nome de Dirceu não é citado.

Voltando ao porta-voz oficial, o Barretão: "Esperamos que o julgamento seja feito no tribunal". 
Porra!, o julgamento está sendo feito no Tribunal.

Já o Kotscho, que diz que o nome de Dirceu não é citado no manifesto, finaliza o seu post assim:

"Em outras palavras, questões jurídicas e político-eleitorais à parte, o que o documento dos seus amigos reivindica é respeito aos direitos do cidadão José Dirceu".

E os direitos dos outros cidadãos-mensaleiros?

Por que diabos não deixam de conversa e abrem logo o jogo? Porque o diabo é esperto: primeiro sonda.
É uma boa tática. Eu mesmo acho que esse troço não vai colar. Manifesto a favor da corrupção? Talvez seja um pouco demais, até mesmo para artistas e intelectuais adeptos da ética do artista petista Paulo Betti, que aconselha os idealistas a meterem "a mão na merda".

Acho que não vai colar, que não vai salvar os mensaleiros petistas da cana dura, mas estou curioso. Até mesmo porque, segundo Luiz Carlos Barreto: "Não é um manifesto. É um texto filosófico-doutrinário".

Puta que Pariu! Será que vão elaborar um novo Imperativo Categórico para justificar o direito dos petistas ilustres à corrupção?

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Pergunta aos petistas sérios e democratas: Rui Falcão, presidente do PT, está preparando um golpe fascista?

Rui Falcão tem feito jus ao nome, revelando-se como falcão autoritário, intolerante e bravateiro. Está no direito dele, desde que não avance para uma ação predatória contra o Estado Democrático de Direito.

Com efeito, as últimas bravatas do presidente do PT ultrapassaram os limites da razoabilidade e do decoro democrático. Faz poucos dias, revoltado com a condenação do deputado João Paulo Cunha no julgamento da Ação Penal 470 (que pessoas politicamente incorretas insistem em chamar de "mensalão"), o Falcão assacou contra o bom senso uma enfiada de cretinices. Vejam:

Que foi "um golpe contra o PT"; 
Que a oposição conservadora, "uma elite suja", usa, contra o PT, de instrumentos que vão "desde a mídia conservadora, passando pelo judiciário";
Que "não mexam com o PT, porque quando o PT é provocado, ele cresce".

Deus do Céu! O João Paulo Cunha foi condenado, por 9 a 2, no Supremo Tribuna Federal, órgão garantidor da Constituição Soberana. Nesta Corte, aliás, 7 dos 10 membros foram indicados pelos presidentes petistas Lula e Dilma.

Falcão, um autêntico revolucionário bolchevista, está certo em não gostar dos conservadores e da mídia conservadora. Agora, revoltar-se por ter a mídia conservadora ecoado as ideias dos... conservadores; aí é uma imbecilidade, se não for coisa pior. E o que será pior do que a imbecilidade? É querer que até a mídia conservadora adote a doutrina do petismo revolucionário. Aí é fascismo.

Afirmar que, tão somente por estar cumprindo seu dever, o STF é instrumento das "elites sujas" é uma típica provocação fascista. Não há nada, rigorosamente nada, que indique sujeição do STF a quem ou a o que quer que seja. A mensagem, tipicamente fascista, é a seguinte: se o Supremo Tribunal Federal não atender aos interesses do petismo revolucionário, será um Tribunal sujo, devendo ser extinto.

"Não mexam com o PT, porque quando o PT é provocado, ele cresce". Essa frase contém uma perspectiva razoável e um desejo legítimo, mas também uma ameaça fascista. Vejamos: se o PT crescer nas urnas, nas eleições de outubro, ótimo. O PT poderá ter uma subida eleitoral magnífica, sem que a oposição possa reclamar. Se o PT, por exemplo, eleger os prefeitos de São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Porto Alegre, Natal e João Pessoa; se isso ocorrer, será uma resposta e tanto a quem "mexe com o PT". Mas o Falcão pode também estar insinuando que o PT pode crescer para cima das instituições, censurando a mídia não petista e invadindo o STF. E isso é fascismo.

Por favor, tem por aí algum petista sério e democrata que possa responder a pergunta do título?







quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Thomas Becket e o rei Henrique II - Joaquim Barbosa e o presidente Lula

Tem muito petista revoltado com a "ingratidão" do ministro Joaquim Barbosa, tão somente por este estar cumprindo seu dever de julgar com isenção o caso do mensalão; isenção que tem marcado a passagem do ministro pelo STF. Em outros processos, aliás, contou com o aplauso dos petistas hoje incomodados.
Ocorre que o ministro foi indicado para o cargo pelo ex-presidente Lula.

Como se sabe, o ex-presidente tem o máximo interesse na absolvição dos seus protegidos mensaleiros. Chegou mesmo, o ex, à tentativa de chantagem sobre um membro da Suprema Corte.

Com efeito, o ministro Barbosa está pegando pesado com os réus da Ação Penal 470 (nome técnico do mensalão). Mas não por alguma predisposição, mas porque as provas dos delitos denunciados são robustas. Não fosse assim, se provas não houvessem, se fossem os réus inocentes, a predisposição do ministro se revelaria em um voto fraco, falho, ilógico e inconsequente. Mas, pelo contrário, vem se revelando um voto robusto, exato, lógico e consequente.

Contudo, onde fica o dever de gratidão do ministro Joaquim Barbosa para com aquele que o indicou (indicação que é quase nomeação, pois, no Brasil, muito dificilmente o Senado rejeita uma indicação presidencial)?
Não fica, não cabe, não cumpre. Uma vez no cargo, o ministro deve honrar o cargo.

Isso tem história. A mais célebre reporta ao século XII, e está referida no título. Foi transformada em romance, teatro e cinema. "Becket, o favorito do rei", filme de 1964 dirigido por Peter Grenville e com soberbas interpretações de Richard Burton (Becket) e Peter O'Toole (Henrique II), foi sucesso de público e crítica, premiado pelas Academias. Filme baseado em peça também famosa de Jean Anouilh.
Vai aqui um resumo da história, para os preguiçosos:

Henrique II Plantageneta, rei da Inglaterra de 1153 a 1189, tinha como melhor amigo Thomas Becket, a quem cumulava de favores. Henrique era um grande governante, deveras compenetrado dos seus deveres reais, o que não o impedia de ser um mulherengo incontrolável e farrista contumaz. Becket, que ajudava o amigo e protetor nos ofícios de governo, também o acompanhava nas farras costumeiras. Eram, como se diz, unha e carne. Eis que o rei vivia em litígio com a Igreja Católica, poderosíssima na Inglaterra e em todos os reinos da cristandade. No reino de Henrique II, o mais importante cargo eclesiástico era o de Arcebispo de Cantuária, Primaz da Inglaterra. O hábil Henrique aproveitou a morte do Arcebispo Teobaldo, seu desafeto, para colocar no seu lugar alguém que lhe fosse absolutamente fiel. O amigo escolhido foi, justamente, Thomas Becket, que, além de amigo fiel, provinha da Igreja e era homem culto e refinado (os nobres de Henrique eram, quase todos, analfabetos e brutos). Pois ocorreu que Thomas Becket, uma vez no cargo, honrou o cargo. O novo Arcebispo de Cantuária mostrou-se exemplo de devoção e defensor intrépido das prerrogativas da Igreja. Cumpriu integralmente aquilo que considerou ser seu dever, sem fazer qualquer concessão a seu antigo amigo e protetor, o rei. Em consequência, o rei ordenou o assassinato do Arcebispo. Ou assim entenderam alguns daqueles nobres ignorantes e brutais que faziam a corte de Henrique. Consta que o rei Plantageneta, ao sofrer mais um revés nos seus confrontos com o Arcebispo de Cantuária, teria dito, na presença dos seus nobres: "Não haverá quem me livre deste padre Turbulento?". Quatro dos mais brutais daquele nobres cavaleiros (verdadeiras cavalgaduras) levaram o desabafo do rei ao pé da letra, seguiram até a Catedral de Cantuária e assassinaram o Arcebispo ao pé do altar da capela-mór. A gente inglesa, maciçamente, responsabilizou o rei e começou a cultuar o Arcebispo assassinado como mártir cristão. O clamor foi tão forte que o poderoso rei Plantageneta, sentindo seu trono vacilar, peregrinou até Cantuária para fazer-se flagelar ao pé do túmulo do Arcebispo. Pouco tempo depois da humilhação real, Thomas Becket, apenas três anos depois do seu martírio, foi canonizado: virou São Tomás Becket. Está no Céu, em beatitude; enquanto Henrique Plantageneta queima na grelha do capeta, lá na sucursal infernal do purgatório (direto para o inferno, Henrique não terá ido, porque seu reino, em vários aspectos, foi benéfico).

E aí, gostaram da história? E a comparação, é procedente? Eu mesmo lhe vejo uma extensa falta: Joaquim Barbosa foi indicado ministro do STF pelo então presidente Lula, mas não eram amigos, sequer se conheciam pessoalmente. A comparação melhor se aplicaria aos ministros Ricardo Lewandowski, indicado por Lula por recomendação da Primeira-Dama Dona Marisa, amicíssima do ministro e da família do ministro. Ainda mais pertinente será a comparação com Dias Toffoli, amigo fiel e protegido do então presidente Lula, quando da indicação. Ocorre que o que pretendi ressaltar aqui foi a já referida obviedade, esquecida pelo fanatismo político-partidário: cumpre ao funcionário, em quaisquer circunstâncias, honrar o cargo. Gratidão não é figura de direito publico. Também, o ministro em evidência até hoje (22/08) de manhã, quando comecei a redigir esse texto, era o ministro Joaquim Barbosa. Agora à tarde, começou a ser focado o ministro Lewandowski, que iniciou seu voto.

Pois, de hoje de noite para amanhã de manhã, farei a comparação entre o amigo de Henrique Plantageneta e o amigo de Dona Marisa. Na sequência e oportunidade, farei a comparação mais pertinente: entre o amigo do coração de Henrique II e o amigo do peito do presidente Lula.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

"O Nome da Rosa" e o Nome do Mensalão

O título do famoso romance de Umberto Eco ecoa uma célebre polêmica da história da filosofia, a "Questão dos Universais". Essa questão ocupou as mais vigorosas mentes do século XI e XII, envolvendo, dentre outros Pedro Abelardo, o malfadado amante de Heloísa.
O problema remonta a Platão. O Platonismo pretende que todas as coisas do mundo, singulares e imperfeitas, sejam cópias de uma realidade perfeita que existe no Mundo das Ideias. Por exemplo: cada rosa singular - precária e perecível - seria cópia da Rosa perfeita e eterna que existe no Mundo das Ideias. Da mesma forma, cada mulher, homem, bicho, planta ou objeto inanimado; tudo que existe no mundo ilusório em que vivemos seria mera sombra, cópia, projeção da respectiva matriz do Mundo das Ideias. Porém estas realidades ideais e eternas não são sensíveis, não têm a ver com o mundo empírico, elas são apenas inteligíveis.
Essas matrizes únicas de infinidades de singulares passaram, na filosofia medieval, a ser denominadas de "universais". A Rosa é um universal. A rosa que desabrochou hoje no seu jardim, caro leitor e cara leitora, rosa que vai murchar, despetalar e fenecer, é um singular, cópia imperfeita daquela Rosa perfeita e eterna do Mundo das Ideias.
Essa Teoria das Ideias de Platão teve formidável influência na história da filosofia, com tantos adeptos quanto desafetos.

Na Baixa Idade Média essa questão ocupou o centro do debate intelectual, dividindo os filósofos em dois campos: "realistas" e "nominalistas". Os "realistas" eram platônicos que afirmavam a realidade dos universais. Os "nominalistas" consideravam que os universais não tinham existência própria, seriam apenas "nomes", meramente emissões vocálicas - flatus voces -, e que só os singulares a que esses nomes se referiam tinham existência própria.
Considera-se que o grande Pedro Abelardo deu a melhor resposta para a questão. Muito resumidamente: os universais não teriam realidade autônoma lá no Hiperurânio (região do mundo das Ideias), mas também não seriam apenas flatus voces, pelo contrário, seriam importantes instrumentos/mecanismos do pensamento que agrupam na compreensão as infinidade dos singulares, que não podem ser compreendidos um a um. Esse mecanismo de percepção, apreensão e compreensão do mundo empírico constitui b-a-bá do aprendizado. São os conceitos.
Devemos entender que conceitos são representações abstratas unificadoras. Sem tais abstrações, o discurso racional seria impossível, dada a infinidade dos referentes singulares.

E o que tem essa conversa toda a ver com o "Nome do Mensalão"? Tem que os defensores dos mensaleiros vêem de dar imensa contribuição à filosofia e à linguística, avançando a mais ousada das teorias: a de que as abstrações têm realidade física, corporal.
Vejam: eles, defensores dos mensaleiros, afirmam que o mensalão nunca existiu, e desafiam quem diz o contrário a provar a existência do mensalão; não demonstrando o mensalão, mas mostrando o mensalão.

O Ministério Público Federal demonstrou exaustivamente a existência do mensalão. Todo mundo que acompanhou o escândalo constatou a enormidade das falcatruas. Alguns réus reconhecem algumas dessas falcatruas, como o Caixa 2. Mas, respondem os defensores dos mensaleiros, nada disso é mensalão. Alguns mensaleiros receberam um grande bolada de uma vez só. Outros receberam mais de uma vez por mês; mas não está provado que alguém tenha recebido, rigorosamente, mês a mês. Então, cadê o mensalão?
Eles querem ver o mensalão, tocar o mensalão, cheirar o mensalão; para poderem acreditar que existiu.
O mensalão está para os mensaleiros como o corpo da vítima de um crime de assassinato está para o assassino. Se o corpo não aparecer, o assassino se safa.
Os mensaleiros e seus defensores não aceitam nada menos que o corpo do mensalão.
Se os ministros do STF aceitarem a tese, os mensaleiros estarão salvos.
Eis a questão: o mensalão não é uma pessoa ou um bicho; nem sequer um objeto. O mensalão é meramente um conceito, um "nome". No caso, o nome designativo de um escândalo de corrupção, com variados entes envolvidos em variadas circunstâncias.
Os mensaleiros podem estar sossegados, o corpo do mensalão não vai aparecer.

Porém, ai porém, os defensores dos mensaleiros querem obter uma segunda vitória: fazer desaparecer o nome. Um advogado do PT quer restabelecer a censura dos tempos da ditadura para proibir a imprensa de usar a expressão "mensalão". É uma idéia de jerico. Acho que não prospera, mas mesmo que prosperasse, continuaria a ser uma idéia de jerico; pois o termo seria imediatamente substituído por outro, que logo se tornaria pejorativo, porque a pejoração não está no nome, está naquilo que o nome designa.

O advogado do PT exige que no lugar de "mensalão" seja usada a expressão "Ação Penal 470".
Vejam um primeiro resultado da referida idéia de jerico: o humorista Sponhoz (o melhor do Brasil) já tratou de fazer uma charge em que os três irmãos metralhas aparecem com suas características roupas de presidiário com números estampados, respectivamente: 470-171; 470-172 e 470-173.

Vou parar por aqui. Vou reler uns trechos de "O Nome da Rosa",  a ver se me chega inspiração para escrever o terceiro capítulo desta saga mensalônica. Quer dizer, o assunto já tenho na cabeça, só falta o nome; que o queria bem sugestivo.



sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Julgamento do mensalão - discordando de Walter Santos: a montanha ainda não pariu

Tenho respeito, admiração e estima pelo jornalista Walter Santos, presidente do poderoso sistema de comunicação WSCOM. Com todo respeito discordarei dele em relação ao julgamento dos denunciados no escândalo do mensalão, ora em curso no Supremo Tribunal Federal.

Em artigos no portal WSCOM, Walter tem considerado que não há provas para condenação dos réus. Vários outros jornalistas simpáticos ao PT sustentam essa posição. Também, políticos petistas e simpatizantes do PT sustentam a tese da falta de provas; alguns chegam a afirmar que o mensalão nunca existiu. Pois, é sobre isso que os ministros do STF estão debruçados. Deles virá o julgamento. Como Walter, formei convicção sobre o escândalo do mensalão, mas em sentido oposto. Entendo que o mensalão existiu, que José Dirceu foi o chefe da "sofisticada organização criminosa" (expressão usado pelo Ministério Público Federal), que corrompeu parlamentares, que foi um atentado à democracia, que roubaram com força, que se locupletaram e que há robustas provas para a condenação dos réus; se não de todos, pelo menos dos cabeças. Porém, por mais convicto que esteja, considero que os Senhores Ministros do STF estão em melhores condições do que eu para fazer o julgamento; além do que, é esta a função deles. Não lhes levanto nenhuma suspeição. Se julgarem contra meu entendimento não haverei de dizer que o fizeram por motivações menores. Já Walter Santos, no caso de uma sentença que contrarie sua já formada convicção, não se mostra tão pacato quanto eu. Vejam estas frases, tiradas de artigo  publicado no WSCOM em 09/08/2012:

"...: ou punem os acusados por formação de quadrilha - isto é, sem provas nenhuma anexas ao processo - e satisfazem certos setores da sociedade brasileira tomada de vontade de escárnio contra o PT";

"Do contrário é se curvar ao interesse político segmentado, de setores localizados...".

Esse "do contrário", significa contrário à absolvição defendida por Walter.
Não tem lógica essa presunção de pusilanimidade dos ministros do STF. O histórico do STF não permite. E se houvesse o STF de se curvar a algum segmento político localizado, seria mais lógico que se curvasse ao segmento político localizado no poder, no Governo; ou seja, o PT.
Ou, porque haveria o STF de satisfazer setores minoritários da sociedade tomados de "vontade de escárnio contra o PT"? Se há na sociedade brasileira setores que hostilizam o PT, haverá setores mais amplos que prezam o PT, com especial culto ao líder petista maior Lula da Silva (aí estão as pesquisas para comprovar o que digo). Seria mais lógico suspeitar que a absolvição, se ocorrer, será feita para satisfazer setores tomados de vontade de louvação a favor do PT.

Por fim, comento o que está indicado no título deste post. Walter Santos diz do mensalão que, transformado no "maior escândalo", no julgamento, ao "primeiro espremido a montanha pariu um rato".

Ora, a montanha ainda não pariu; está em gestação. O parto se dará pela intervenção cirúrgica dos votos dos ministros-obstetras. Penso que a montanha haverá de parir não apenas um, mas vários ratos. E espero que os ratos,uma vez paridos, sejam imediatamente conduzidos à prisão.

sábado, 9 de julho de 2011

"Sem sombra de dúvida"

José Dirceu é o chefe da quadrilha do mensalão. "Sem sombra de dúvida". A conclusão e a expressão retórica são do Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, recém confirmado no cargo pela Presidente Dilma Rousself. O Procurador anterior, Antonio Fernando de Souza, chegara à mesma conclusão. E também o relator do caso no STF, Ministro Joaquim Barbosa. O parecer de Roberto Gurgel tem 390 páginas, será minha leitura de domingo (que é um dia muito chato). Mas o que vai pela mídia já dá pro gasto de um post. O procurador pede 111 anos de cadeia para José Dirceu e outros 111 para Delúbio Soares. Para Marcos Valério, 527 anos de cana dura. Comparativamente, o deputado João Paulo Cunha, do PT, tirou barato: de 10 a 42 anos de sol quadrado. As penas totais pedidas (são 36 os acusados) somam 4.700 anos (segundo conta feita pela Folha de São Paulo). Vou ler o extenso parecer por dever de ofício, mas dois trechos que estão sendo destacados na mídia dizem tudo:

"As provas coligidas no curso do inquérito e da instrução criminal comprovam, sem sombra de dúvida, que José Dirceu agiu sempre no comando das ações dos demais integrantes dos núcleos político e operacional do grupo criminoso. Era, enfim, o chefe da quadrilha". 

"Foi engendrado um plano criminoso voltado para a compra de votos dentro Congresso Nacional. Trata-se da mais grave agressão aos valores democráticos que se possa conceber"

A magnitude dessa agressão eu posso conceber, mas outras coisas não consigo conceber nem entender:

a) Por que Zé Dirceu continua mandando no PT?
b) Por que Delúbio Soares voltou ao PT nos braços da militância?
c) Por que João Paulo Cunha foi eleito presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara?
c) Por que Luiz Inácio Lula da Silva insiste em afirmar que o mensalão nunca existiu?
d) Por que esta quadrilha ainda está solta?

Alguém, por favor, poderia me explicar?