Blog Rocha 100

No princípio, criou Deus os céus e a Terra”. Ótima frase para um Blog que navegará 100 fronteiras: dos céus metafísicos à “rude matéria” terrestre. “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Pois, somos também deuses, e criadores. Podemos, principalmente, criar a nossa própria vida, com autonomia: isto se chama Liberdade. Vida e Liberdade são de Deus. Mas, quem é “Deus”? Devotos hebreus muito antigos, referiam-se a Ele apenas por perífrases de perífrases. Para Anselmo de Bec, Ele é “O Ser do qual não se pode pensar nada maior”. Rudolf Otto, diante da dificuldade de conceituá-Lo, o fez precisamente por essa dificuldade; chamou-O “das Ganz Andere” (o Totalmente Outro). Há um sem número de conceitos de Deus. Porém, o que mais soube ao meu coração foi este: “O bem que sentimos intimamente, que intuímos e que nos faz sofrer toda vez que nos afastamos dele”. É de uma jovem filósofa: Catarina Rochamonte.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A Democracia é minha Escolha!

Nesta quinta-feira, 19/09, às 09h30, prestarei depoimento junto à Comissão Estadual da Verdade/PB. A sessão será aberta ao público. Conto com a presença de todos os amigos e peço que divulguem amplamente. Segue o Convite que me foi enviado pela Comissão. Vejam. Voltarei com uma breve palavra.


Ilmo. Sr.
WASHINGTON ROCHA
Vítima do Regime Militar
João Pessoa – Paraíba.


Prezado Senhor,
Cumprimentando-o, cordialmente, convido Vossa Senhoria para prestar depoimento na Comissão Estadual da Verdade e da Preservação da Memória do Estado da Paraíba, sobre as perseguições e outras violações aos direitos humanos que o senhor sofreu durante o regime militar.

Informo, ainda, que a Audiência Pública desta Comissão ocorrerá na sede da Associação Paraibana de Imprensa (API), às 09h30 horas, do dia 19 de setembro do corrente ano.
Certo de poder contar com a colaboração e apoio de V. S.ª, coloco-me aqui ao seu inteiro dispor, para quaisquer informações que se fizerem necessárias.
Atenciosamente,



                                                                        Paulo Giovani Antonino Nunes
             Presidente




Ainda adolescente participei, como líder estudantil secundarista e membro do PCBR, das lutas dos "anos de chumbo". Fui perseguido pela ditadura militar, detido várias vezes, expulso dos colégios, proibido de entrar na UFPB depois de ser aprovado no vestibular para o Curso de Direito. Fui sequestrado, mantido em cárcere privado e torturado nas dependências do IV Exército, em Recife-PE. Na sequência dessas perseguições, comandei em minha cidade, na condição de Presidente do Comitê Brasileiro pela Anistia/secção João Pessoa, a luta pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita. Luta que foi vitoriosa. Com a edição da Lei de Anistia de 1979, os presos políticos foram libertados, os exilados retornaram e foi aberto o caminho para a redemocratização.

Com todas essas lutas, fui aprendendo por experiência o que Aristóteles já ensinara: "A coragem é a maior das qualidades humanas porque garante todas as outras".

Porém, aprendi mais: sem o amor, a coragem é inútil.

Aquele muito corajoso Imperador Juliano Apóstata, que cultuava os deuses olímpicos, proclamava intrepidamente: "Somente o Sol é minha Coroa!".

Eu proclamo:

Somente Deus é o meu Deus! Minha Fé é Cristo Jesus! 

A Liberdade é meu Princípio! A Democracia é minha Escolha!














segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Sobre a carta de Karl Marx a Pavel Annenkov: a metafísica da história, a mitologia do paraíso terrestre e a práxis da escravidão

Como prometi, vou opinar sobre a carta de Karl Marx a Pavel Annenkov, onde o pai do comunismo moderno defende e enaltece a escravidão. De início, chamo atenção para este judicioso comentário de Rafael Freire ao post em que publiquei o polêmico trecho:

Caro Rocha, não há na fala de Marx qualquer enaltecimento à escravidão negra. O que ele faz é se colocar desde um ponto de vista capitalista (particularmente dos interesses dos EUA), daí porque afirma que a escravidão não só é boa como indispensável. É importante lembrar que Marx analisou criticamente a sociedade capitalista como nenhuma outra pessoa, e jamais defenderia a escravidão indireta (mecanismo salarial) ou a escravidão direta (aprisionamento de uma raça/povo sobre outra(o). No mais, ele só provou com esta pequena carta o quanto seu pensamento era profundamente dialético, pois, de fato, tudo tem seu lado bom e seu lado ruim, inclusive a escravidão (DESDE UM PONTO DE VISTA CAPITALISTA, COMO É O CASO NESTA CARTA).

RAFAEL FREIRE"

Com efeito, em princípio, Marx não foi  um apologista da escravidão, pelo contrário, pugnou pela emancipação completa da humanidade através da revolução proletária. Todavia, na carta referida, no trecho referido, Karl Marx defende e enaltece a escravidão negra: o "lado bom" desta escravidão. Que seja de um ponto de vista capitalista, é certo, sendo este, precisamente, o ponto de vista de Marx: que o capitalismo deveria desenvolver ao máximo suas forças produtivas até um ponto de maturação que levasse essas mesmas forças à necessidade de destruir as relações de produção capitalistas para poder continuar a crescer. No ensaio "Contra a Teoria do Capitalismo de Estado - Resposta ao Camarada Cliff" (www.tedgrant.org), o marxista/trotskista sul-africano Ted Grant, tal como Rafael Freire, justifica a carta de Marx por esse ponto de vista. Vejamos:


"Marx explicou que a justificação histórica do capitalismo – apesar dos horrores da revolução industrial, da escravidão dos negros africanos, do trabalho infantil nas fábricas, das guerras de conquista através do planeta – se baseava no fato de que era uma etapa necessária ao desenvolvimento das forças produtivas. Marx demonstrou que, sem a escravidão – não apenas a antiga escravidão, mas também a escravidão na primeira época de desenvolvimento do capitalismo –, o desenvolvimento moderno da produção teria sido impossível. Sem estas condições nunca poderiam ter sido preparadas as bases materiais para o comunismo". 


No "Manifesto Comunista", Marx e Engels pintam com cores fortes a ferocidade do avanço capitalista pelo mundo, destruindo antigas relações de produção e, por consequência, antigas e caras relações sociais: "Tudo que era sólido se desmancha no ar, tudo que era sagrado é profanado". Mas justificam tal ferocidade pela imperiosa necessidade da evolução/revolução econômica. O que Marx diz na carta a Annenkov, sem rebuços, é que a escravidão negra era complemento da economia capitalista e, assim, necessária ao desenvolvimento que levaria à revolução proletária.
Para os marxistas, o caminhar inexorável da história, que traz em si um sentido (até então oculto, mas desvendado por Marx), movida necessariamente pelos fatores econômicos em uma direção previsível, é um bom e verdadeiro postulado científico. Na verdade, é apenas uma ruim metafísica. Dessa metafísica ruim derivou o mito do paraíso terrestre, que acalentou as esperanças de muitos milhões de sofredores.
Essa metafísica histórico-econômica e seu mito sedutor estão na raiz de desgraças incomensuráveis que o marxismo, através do bolchevismo (marxismo-leninismo), trouxe ao mundo. Pela crença na inevitabilidade histórica do comunismo, o paraíso na terra, justificaram-se todas as atrocidades. Sobre essa metafísica  e esse mito ergueu-se a repugnante "moral revolucionária" do bolchevismo, que pode ser assim resumida: tudo que favorece a revolução proletária se justifica pela grandiosidade da finalidade dessa revolução.

Deve-se dizer, de passagem, que a mitologia marxista do paraíso terrestre repete o percurso teleológico rumo ao paraíso celeste exposto por Santo Agostinho em "A Cidade de Deus".
Na via das necessidades históricas, seguiram-se as exigências políticas que haveriam de corresponder a essas necessidades: Marx e Engels postularam a "ditadura revolucionária do proletariado". Eram Marx e Engels apologistas de ditaduras? Em princípio, não. Entendiam que tal ditadura seria apenas uma etapa necessária no caminho da emancipação. Essa postulação da "ditadura do proletariado" não chega a ser propriamente uma metafísica, é mesmo uma tremenda estupidez. Desde a primeira revolução marxista, na Rússia, comandada pelos bolchevistas Lênin e Trotski, a "ditadura do proletariado" se exerceu como ditadura sobre o proletariado. Isso foi denunciado de pronto por dois eminentes marxistas: Rosa de Luxemburgo e Karl Kautsky.
Certamente, Rosa e Kautsky, marxistas fervorosos, consideravam que os bolchevistas praticavam aquelas violência e opressão estarrecedoras sobre o proletariado ao arrepio da doutrina do mestre. Porém, àquela revolução marxista vitoriosa seguiram-se várias outras sem que nenhuma deixasse de cometer violências estarrecedoras e de impor sobre o proletariado (e a população em geral) uma feroz e permanente ditadura, sem transição para nenhum paraíso, findas apenas através de insurreição popular.

É preciso que se aprenda com a história: a metafísica marxista da história, em todos os países em que os revolucionários marxistas empolgaram o poder, levou à práxis (prática) da escravidão ou da servidão.
Entendo que o marxismo, apesar das desgraças que trouxe ao mundo, é uma doutrina interessante, com alguma coisa aproveitável, desde que destituída das suas pretensões totalizantes. Como doutrina para construção de um novo mundo e de um "novo homem", o marxismo morreu, faz tempo. A autópsia foi feita pelo filósofo Iremar Bronzeado, em um livro que trarei à baila para continuar este debate. Além de Iremar, trarei à arena o próprio Marx, numa versão contrária ao Marx da carta a Annenkov. Vejam: em novembro de 1864, 18 anos depois da carta em que defende e enaltece a escravidão negra, Marx escreveu uma belíssima carta ao presidente Abraham Lincoln saudando a vitória da reeleição e a luta do presidente americano contra a escravidão negra. Transcrevo a vigorosa abertura da esplêndida carta (www.marxists.org):


"Senhor,
Felicitamos o povo Americano pela sua reeleição por uma larga maioria. Se a palavra de ordem reservada da sua primeira eleição foi resistência ao Poder dos Escravistas [Slave Power], o grito de guerra triunfante da sua reeleição é Morte à Escravatura.
Desde o começo da titânica contenda americana, os operários da Europa sentiram instintivamente que a bandeira das estrelas carregava o destino da sua classe. A luta por territórios que desencadeou a dura epopeia não foi para decidir se o solo virgem de regiões imensas seria desposado pelo trabalho do emigrante ou prostituído pelo passo do capataz de escravos?".


Continuarei em um próximo post. Espero comentários. Pretendo o debate. Sem debate, essa conversa não tem graça.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Lançamento da 4ª edição da ROCHA 100 - Revista 100 Fronteiras, com Homenagem ao historiador José Octávio de Arruda Mello: Karl Marx e a escravidão, Jesus Cristo e a Democracia

O lançamento da 4ª edição da ROCHA 100 - Revista 100 Fronteiras, com Homenagem ao historiador José Octávio de Arruda Mello, na noite da última sexta-feira (06/09), em O Sebo Cultural, transformou-se em um excelente debate. Na Mesa, para debater com o homenageado, estavam o também historiador e político Marcus Odilon, o filósofo Iremar Bronzeado, o escritor e intelectual comunista João Ribeiro, o médico e intelectual socialista católico Romeu de Carvalho, o artista e intelectual um tanto anarquista José Bezerra Filho, e este ROCHA 100 que vos fala (como mediador).

Pra começar, o debate foi bom porque houve debate. Vejam: a esquerda marxista por tal maneira monopolizou a agenda político-cultural de João Pessoa que os debates, de ordinário, transformaram-se em conversa de comadres entre comadres marxistas.

Pois vejam que assombro: o expositor, José Octávio, começou por  defender o liberalismo como condição da  democracia, citando o liberal-socialista Norberto Bobbio. Marcus Odilon fez referência a um post deste Blog (aquele que traz a carta em que Karl Marx defende a escravidão negra) e discorreu sobre os fundamentos econômicos das transformações sociais. Para Marcus, a superação da escravidão só foi possível com o advento das máquinas industriais. Romeu de Carvalho falou das relações entre socialismo e catolicismo. José Bezerra Filho meteu o pau no imperialismo norte-americano, que só não teria invadido Cuba porque lá não tem petróleo. Nisso foi contestado por Iremar Bronzeado, que realçou o papel dos EUA como defensores da liberdade. Também foi Iremar, conhecido como o "Filósofo da Liberdade", quem levantou a tese de que só aconteceram duas verdadeiras revoluções na história: a Revolução Cristã e a Revolução Francesa. E mais, que os fundamentos da democracia moderna foram estabelecidos pelo cristianismo. Essa tese foi refutada por alguém da platéia, mas também na platéia teve quem a defendesse. Enfim, houve debate, não conversa de comadre.

Houve também uma performance teatral esplêndida de Cláudia Carvalho. Romeu de Carvalho cantou ao violão. Zé Bezerra da Paraíba, o Pavarotti dos Trópicos, soltou sua poderosa voz tenor.

Foi uma festa: comandada com o vigor de sempre por Heriberto Coelho, o maior mobilizador cultural da Paraíba. Muitos alunos de José Octávio vieram prestigiar o mestre, com carinho. E o mestre não se acanhou de dizer que, para incentivar o carinho dos alunos, garantiu 2 pontos nas notas da próxima prova pela participação no evento. Eu reclamei, dizendo que eles mereciam mais.

Mas não marcaram presença apenas alunos, também outros mestres: a professora Linalda, a professora Nadilza, o professor Piva, o professor Caboré, o psiquiatra José Ricardo, o politicólogo Rui Galdino, o advogado Waldir Porfírio, o engenheiro José Rocha, o folclorista José Nilton... e muita, muita gente.

Enfim, quer fazer sucesso? FAÇA EM O SEBO CULTURAL.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A ética indecente, infame, repulsiva, asquerosa, nojenta e sebosa de Peter Singer

Faz mais de ano, tratei da ética de Peter Singer, um troço deveras asqueroso. Eis que o filósofo australiano volta à baila, com longa entrevista publicada no site da Veja e reproduzida em vários portais, inclusive este Portal 100 Fronteiras. Ele tem muitos simpatizantes no mundo e no Brasil, mesmo porque existe um aspecto simpático na sua doutrina: a defesa dos animais. Todavia, isso não será suficiente para justificar a sua defesa do extermínio de crianças. Nada no mundo, nem fora do mundo, o será. Na entrevista, o sacripanta carniceiro infanticida não diz nenhuma novidade. O mais curioso que notei foi que tanto o filósofo quanto o entrevistador fogem do ponto mais repulsivo, seboso e nojento da ética singeriana: precisamente a defesa do assassinato de crianças. Por isso voltei a tratar dessa nojenteza, para não deixá-la encoberta, com uns babacas aí chamando tal infame carniceiro de "novo Sócrates" e "humanista". Mas não precisei escrever um novo artigo; recuperei o antigo, de março de 2012.

domingo, 4 de março de 2012


O cristianismo e a ética asquerosa de Peter Singer

Uns tais Alberto Giublini e Francesca Minerva  publicaram no "Journal of Medical Ethics"um texto defendendo o infanticídio. Tanto os autores quanto o editor, Julian Suvalescu, foram duramente criticados. No Brasil, o crítico mais duro vem sendo o blogueiro Reinaldo Azevedo, que é o mais lido do Brasil. Não vou aqui tratar desse texto, pois acho que o Reinaldo está dizendo o suficiente (vejam lá, nos Blogs da Veja). Quero chegar a Peter Singer, que é um filósofo renomado.

Na justificativa que deu para a publicação do texto infanticida, o editor Suvalescu valeu-se da autoridade de Peter Singer. Este filósofo australiano radicado nos Estados Unidos é mesmo uma autoridade, adotado em algumas academias mundo afora, inclusive nas academias brasileiras, especialmente seu livro mais famoso, "Ética Prática" (editado no Brasil pela Martins Fontes - tradução de Jefferson Luiz Camargo). Não acho que o editor do "Journal of Medical Ethics" precise de justificativas, ele tem o direito de publicar o que quiser. Mas, com ou sem Peter Singer, o referido texto continua indecente.

A filosofia de Peter Singer é também indecente, embora tenha uma parte decente, simpática e generosa. Essa parte boa é a defesa dos animais. Porém, ai porém...; Singer equipara os animais aos humanos não apenas para a proteção daqueles, mas para  justificar o extermínio destes. Quer dizer, pelo menos enquanto forem criancinhas. Segundo o eminente filósofo, uma criancinha não é ainda uma pessoa, podendo ser assassinada sem que os assassinos precisem sequer sentir remorsos.

O infanticídio é por tal maneira infame, tão evidentemente infame, que não me ocuparei em refutá-lo, vou apenas expor algumas justificativas de Singer (todas do referido livro), com um ou outro comentário, que faço para desopilar o fígado. Desde que li o livro de Singer, faz algum tempo, meu fígado ficou intoxicado. Quem achar que as citações estão fora de contexto, que vá ao texto: a monumental canalhice tem 399 páginas. Os excertos expostos a seguir, dão uma ideia:

"Se o feto não tem o mesmo direito à vida que uma pessoa, resulta que o bebê recém nascido também não  o tem e que a vida de um bebê recém nascido tem menos valor para ele que a vida de um porco, de um cão ou de um chimpanzé para este animal".

"Em geral, como os bebês são indefesos e moralmente incapazes de cometer um crime, faltam aos que os matam as desculpas comumente oferecidas para o assassinato de adultos. Nada disso mostra, porém, que o assassinato de um bebê é uma coisa tão perversa quanto o de um adulto (inocente).

"Se conseguirmos por de lado esses aspectos comoventes (a aparência frágil e graciosa dos bebês), mas rigorosamente irrelevantes da morte de um bebê, seremos capazes de ver que os motivos para não matar pessoas não se aplicam aos bebês recém nascidos".

"Do mesmo modo, a razão utilitarista preferencial para se respeitar a vida de uma pessoa não pode aplicar-se a um recém-nascido. Os recém nascidos não podem ver-se como seres que podem ter, ou não, um futuro; portanto não podem ter o direito de continuar vivendo".

Este facínora filósofo não indica com exatidão uma idade limite para o abate de bebês; insinua, entretanto, que até mais ou menos os três anos o abate é livre. Vejam:

"É claro que seria difícil dizer em qual idade as crianças começam a ver-se como entidades distintas dotadas de existência no tempo. Mesmo quando conversamos com crianças de dois e três anos de idade, costuma ser difícil extrair delas alguma concepção coerente da morte, etc...".

A questão, como se vê, não é a idade, mas o tirocínio da criança: enquanto a pobrezinha não for capaz de travar um diálogo filosófico, pode-se matá-la sem mais aquela.

O Singer, por sobre facínora, é covarde. Depois de afirmar essas monstruosidades ele faz uma cautelosa ressalva:

"Deveríamos agir como se uma criança tivesse direito à vida desde o momento em que nasce". 

Presumo que este filósofo meliante esteja com medo de ser colhido nas malhas da lei por incitação ao crime.

Mas, que tem o cristianismo a ver com toda essa asquerosidade? Eis que o filósofo cretino indica o cristianismo como culpado pela proteção que se costuma dar aos bebês. Vejam que coisa formidável diz o sem-vergonha:

"Se essas conclusões parecem chocantes demais para serem levadas a sério, talvez valha a pena lembrar que a proteção absoluta que damos às vidas dos bebês é uma atitude especificamente cristã, e não um valor ético universal".

E mais adiante:

"Talvez hoje seja possível examinar essas questões sem adotar a estrutura moral cristã que, por tanto tempo, impediu toda e qualquer reavaliação essencial".

Pois então, quer dizer que é o cristianismo que tem nos defendido destas bestas genocidas?

VIVA JESUS CRISTO!

sábado, 31 de agosto de 2013

A carta em que Karl Marx defende e enaltece a escravidão negra (especificando a escravidão no Brasil)

Em 1846, de Paris, Karl Marx escreveu uma carta a Pavel Annenkov esculhambando com o livro A Filosofia da Miséria (Systéme des contraditions économiques ou Philosophie de la misére), do anarquista Pierre Joseph Proudhon, e com o próprio Proudhon. Em um trecho dessa carta, Marx faz uma veemente defesa da escravidão negra, citando, inclusive, o caso da escravidão no Brasil. A longa carta está disponível no Marxists Internet Archive e pode ser consultada por quem queira. Várias traduções estão disponíveis em muitos sites. Publico o trecho referido tal como está em
www.scientific-socialism.de/FundamentosCartasMarxEngels281246.htm


Gostaria, agora, de apresentar-lhe um exemplo da dialética do Sr. Proudhon.
liberdade e a escravidão constituem um antagonismo.
Não preciso falar nem dos aspectos bons nem dos aspectos maus da liberdade.
No que respeita à escravidão, não é necessário falar de seus aspectos maus.
A única coisa que carece de elucidação é o aspecto bom da escravidão.
Não me refiro à escravidão indireta, i.e. a escravidão dos proletários.
Refiro-me à escravidão direta, à escravidão negra, existente no Suriname, no Brasil, nos Estados do sul dos EUA.
escravidão direta é o ponto decisivo de nossa indústria contemporânea, tal quais o são as máquinas, o crédito etc.
Sem escravidão, não há algodão. Sem algodão, não há indústria moderna.
Só o advento da escravidão conferiu às colônias o seu valor, só as colônias criaram o mercado mundial.  
mercado mundial é a condição necessária da grande indústria de máquinas. 
Assim, antes do tráfico negreiro, também as colônias do velho mundo forneciam, portanto, apenas muito poucos produtos e não modificavam, perceptivelmente, a face do mundo.
Consegüintemente, a escravidão é uma categoria econômica de suprema importância.
Sem a escravidão, os EUA, a nação mais avançada, transformar-se-iam em um país patriarcal.
Riscando-se os EUA do mapa mundi, teríamos a anarquia, a total decadência do comércio e da civilização moderna.
Porém, permitir que a escravidão desaparecesse, significaria riscar os EUA do mapa mundi.     
Assim, como também a escravidão é uma categoria econômica, é ela, pois, encontrada desde o início do mundo, em todos os povos.
Os povos modernos apenas mascararam a escravidão em seus países e introduziram-na, conscientemente, no Novo Mundo.
Ora, depois dessas reflexões acerca da escravidão, o que é que fará o bom Sr. Proudhon ?
Procurará a síntese de liberdade e escravidão, o verdadeiro juste-milieu (EvM.: o justo-meio), em suma: o equilíbrio entre escravidão e liberdade.". 


Em um próximo post, pretendo fazer considerações sobre este posicionamento um tanto desconcertante do pai do comunismo moderno. Antes, porém, gostaria que os leitores opinassem sem nenhuma mediação; sendo aconselhável, claro, que leiam a carta na íntegra.

domingo, 18 de agosto de 2013

"Politicamente Correto & Direitos Humanos" - um post ainda mais besta que o anterior

Eu ando com uma preguiça medonha de escrever; aí, para o último post, escrevi um monte de besteiras. Porém e todavia, surpreendentemente, bombou; o número de visitas subiu com força: uma beleza! A pois (linguagem de Guimarães Rosa), resolvi escrever um post ainda mais besta, a ver se a audiência internáutica aumenta ainda mais. Pensei, pensei e, pimba!; coisa mais besta do que o "Politicamente Correto", não conheço. É também uma doutrina perigosa. Eu mesmo já declarei que se a "ditadura do Politicamente Correto" for implantada no Brasil, mudo-me para a Coréia do Norte, para viver sob a "ditadura do proletariado", que é mais branda. Mas vamos nos deter no aspecto divertido da doutrina. Malandramente, para ajudar minha preguiça, vou transcrever mais do que escrever. Vocês devem se lembrar que em 2004 foi publicada pela Secretária Especial de Direitos Humanos da Presidência da República a cartilha "Politicamente Correto & Direitos Humanos", com palavras e expressões a  serem expurgadas da linguagem dos brasileiros. Mais de uma vez, eu trouxe a este Blog notícia dessa cartilha, mas é um filão inesgotável; trata-se de uma impagável peça de humor (ainda que não intencional, não importa), comparável às melhores criações nacionais, de gigantes do humor, como Millôr Fernandes, Stanislaw Ponte Preta e o Barão de Itararé. Vejam alguma pérolas da nunca assaz lembrada cartilha (entre parênteses, vão meus comentários):

"Barbeiro - O uso da expressão, no sentido de motorista inábil, obviamente é ofensiva ao profissional especializado em cortar cabelo e aparar barba".

(Meu barbeiro, que já me deu carona mais de uma vez, quando no trânsito, ofende a si mesmo, pois chama os outros motoristas de "barbeiros"; e outros nomes feios, é um barbeiro politicamente incorreto).

"Beata - O termo deprecia as mulheres que vão com muita freqüência às  missas e ofícios da Igreja católica".

(Uma tinha minha, já falecida, por quem eu tinha - e tenho - imenso carinho, ia muito à missa. Eu dizia: "Tia, a senhora é muito beata!". Ela não se ofendia, e me mandava rezar: "Vá rezar, menino, deixe de ser besta!").

"Cabeça chata - Termo insultuoso, racista, dirigido contra os nordestinos, em especial os cearenses".

(O termo até pode ser insultuoso, mas racista não é: branco, negro, índio ou miscigenado, tudo que é cearense é cabeça chata).

"Ladrão - Atualmente, o termo é mais aplicado a indivíduos pobres. Os ricos são preferencialmente chamados de 'corruptos', o que demonstra que até os xingamentos têm viés classista".

(Sei não. O Maluf, por exemplo, que é muito rico, todo mundo chama ele, talvez injustamente, de ladrão. E o juiz Nicolau, chamam de lalau).

"Palhaço - O profissional que vive de fazer as pessoas rirem pode se ofender quando alguém chama de 'palhaço' uma terceira pessoa a quem se atribui pouca seriedade a uma atitude sua".

(Fala sério! Precisa ser muito palhaço para levar a sério uma cogitação tão imbecil).

Por causa da minha preguiça, paro por aqui. Mas vocês podem acessar todas as pérolas desse tesouro na internet. E, como parte das comemorações de 10 anos de governo do PT, a hilariante cartilha deverá ter uma nova edição impressa, revista e ampliada.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O Dia dos Pais e o Calendário Positivista de Auguste Comte

Para que serve o Dia dos Pais? Principalmente para aumentar o faturamento dos comerciantes. Não digo isso em tom de crítica. Pelo contrário, acho bom que os comerciantes faturem. Sou grande apreciador da sociedade de consumo. Eu mesmo, consumo o que posso; e não consumo mais porque não posso. Os críticos da sociedade de consumo, pelo menos os que conheço, consomem mais do que eu. Ocorre que consomem coisas esquisitas, especialmente feitas para serem consumidas pelos inimigos mortais da sociedade de consumo. Os comerciantes especializados em produtos para serem consumidos pelos anticonsumistas se dão bem, faturam uma barbaridade; e o negócio não para de crescer. Guido Mantega e Dilma Rousseff agradecem, pois precisam de muito consumo para fazer crescer o negócio lá deles, que está pequeno: o pibinho.

Mas meu assunto era outro. O Dia dos Pais, que se comemorou ontem - domingo/11 de agosto -, surgiu por influência do Calendário Positivista de Auguste Comte. A filosofia positivista será já um anacronismo, mas teve influência avassaladora de meados do século XIX até início do séc. XX, quando foi substituída pela filosofia marxista, também dita materialismo-dialético. Tenho em mãos os dois catecismos: o de Comte, propriamente intitulado Catecismo Positivista, e o de Marx e Engels, intitulado O Manifesto Comunista (no marxismo tem também uma Suma Teológica, intitulada O Capital, mas é um calhamaço muito chato que pouca gente leu). Não gostando nem de um nem de outro, posso garantir que o positivismo original é mais produtivo e menos mistificador.

O positivismo, todo mundo sabe, veio para acabar de vez com a metafísica, com todas as ilusões de transcendência, especialmente a crença em Deus e na Vida Eterna, e em outras superstições religiosas pregadas pela Igreja Católica e adotadas pelas mentes atrasadas e obtusas. Todavia, terminou, o positivismo, por criar sua própria religião, a Religião da Humanidade, e fundar sua própria Igreja Positivista, com rituais ainda mais complicados que os do catolicismo.

O marxismo, embora depois da morte do mestre Karl Marx, também criou sua própria religião e edificou sua própria Igreja. A Religião Marxista teve como Igreja o chamado Komintern, e o seu Santo Papa foi Stalin. Foi tão - ou mais - poderosa quanto a Igreja Católica na Idade Média. Porém, as muitas heresias e a rebelião do rebanho levou a um fim prematuro. Atualmente, a doutrina revive sob o curioso nome de "Politicamente Correto", e trabalha intensamente para edificar uma nova Igreja.

Voltando a Comte, veremos que a referida Religião da Humanidade e sua Igreja Positivista estabeleceram, inclusive, calendário próprio, tendo como referência não mais os santos católicos (alguns entram, por exceção), mas personagens do mundo secular e instituições sociais. Inspirado no abade Marco Mastrofini, Comte elaborou o Calendário Histórico, para acabar com o ultrapassado Calendário Gregoriano (na verdade, circularam outras versões de calendário positivista, sendo o Calendário Histórico o mais difundido):

Calendário Positivista/Histórico (364 dias, 13 meses de 28 dias, dois dias extras e ano bissexto - um dia extra para Festa dos Mortos e ou outro em Homenagem às Santas Mulheres; ou uma determinada Mulher)

Mês 1 - Moisés
Mês 2 - Homero
Mês 3 - Aristóteles
Mês 4 - Arquimedes
Mês 5 - César
Mês 6 - São Paulo
Mês 7 - Carlos Magno
Mês 8 - Dante
Mês 9 - Gutemberg
Mês 10 - Shakespeare
Mês 11 - Descartes
Mês 12 - Frederico II
Mês 13 - Bichat

Muito simpáticos os heróis de Comte. Num calendário meu, substituiria um ou outro, mas reconheço que todos têm grande merecimento. O menos famoso será esse Bichat. Não era bicha (se bem que, no seu tempo, se fosse, não sairia do armário). Trata-se do grande anatomista e fisiologista francês Marie François Xavier Bichat, pai da histologia moderna.

Tem ainda o complicadíssimo Calendário Sociolátrico, com as 81 Festas Anuais da Religião da Humanidade. Algo especialmente curioso nesse Calendário é o Mês de Festas dedicadas ao Casamento, diferenciado por Comte em 4 tipos:

Casamento Completo - Casamento Casto - Casamento Desigual - Casamento Subjetivo

O Casamento Completo deve ser muito bom. O Casamento Desigual deve ser o atribulado casamento que quase todo mundo vive, inclusive Comte, cuja esposa, Caroline, era, segundo o atormentado marido, "insubmissa e controladora" (no Brasil, costuma-se chamar esse tipo de esposa de "Dona Encrenca"). O grande amor de Auguste Comte foi Casto e Subjetivo. Platônica e perdidamente, apaixonou-se o filósofo por Clotilde de Vaux, em memória e sob inspiração de quem, justamente, elaborou a Religião da Humanidade e edificou sua Igreja Positivista.

Para o fim da vida, siderado pela imagem da sua inolvidável Clotilde, como Edgar Allan Poe, no sublime poema O Corvo, pela "inolvidável Lenora", dizem os desafetos, Auguste Comte já não batia bem da bola. Seus devotos negam tal alienação mental.

De qualquer modo, os principais líderes positivistas, que realizaram grandes feitos pelo mundo afora, foram, de modo geral, personagens responsáveis e sisudos. No Brasil, todo mundo sabe, foram decisivos na Proclamação da República, tanto que o lema sagrado da doutrina positivista está imortalizado na Bandeira Nacional Brasileira, embora em versão mutilada. A fórmula sagrada da Religião Positivista é: "O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim ". O bravo senador Suplicy quer restaurar o "Amor" no "auriverde pendão" que, diz o poeta, "a brisa do Brasil beija e balança" (eis aí, vejam, um bom tema para plebiscito; melhor que financiamento público de campanhas para encher as burras dos partidos, forrar os bolsos dos políticos)

Não foi só a República e a Bandeira, o positivismo nos deixou toda uma graciosa herança, e graças a tão augusta doutrina, hoje em dia "todos e todas brasileiros e brasileiras" têm, como diria Erasmo Carlos, "Um Dia Pra Chamar de Seu":

Dia dos Pais, Dia das Mães, Dia do Trabalho, Dia do Professor, Dia da Criança, Dia do Pedicuro, Dia do Médico, Dia do Guarda Noturno, Dia do Numismata, Dia dos Supermercados (os supermercados roubam todos os dias, e ainda ganham um dia específico para roubarem mais), Dia do Índio (os índios, coitados, perderam suas terras, mas, em compensação, ganharam um dia só para eles), Dia do Pintor de Parede (na minha pesquisa-google não encontrei o Dia do Pintor de Rodapé de Parede, mas deve ter), Dia da Madrinha, Dia da Marinha, Dia do Funcionário Público Aposentado, Dia do Poeta, Dia do Agente Fiscal (nos tempos antigos, segundo os Evangelhos, eram hostilizados e chamados 'publicanos', hoje estão redimidos), Dia Nacional de Respeito ao Contribuinte (jamais foi levado a sério), Dia do Aperto de Mão, Dia do Orquidófilo, Dia do Revendedor Lotérico (foi instituído pelo deputado anão do orçamento por lembrança do amigo que lhe revendeu 221 bilhetes premiados), Dia do Caboclo, Dia do Palhaço, Dia da Pizza (especialmente cultuado pelos políticos corruptos), Dia da Baiana do Acarajé, Dia do Vendedor de Livros, Dia da Coragem (é o meu dia; precisa ter muita coragem pra escrever tanta besteira).