Blog Rocha 100
“No princípio, criou Deus os céus e a Terra”. Ótima frase para um Blog que navegará 100 fronteiras: dos céus metafísicos à “rude matéria” terrestre. “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Pois, somos também deuses, e criadores. Podemos, principalmente, criar a nossa própria vida, com autonomia: isto se chama Liberdade. Vida e Liberdade são de Deus. Mas, quem é “Deus”? Devotos hebreus muito antigos, referiam-se a Ele apenas por perífrases de perífrases. Para Anselmo de Bec, Ele é “O Ser do qual não se pode pensar nada maior”. Rudolf Otto, diante da dificuldade de conceituá-Lo, o fez precisamente por essa dificuldade; chamou-O “das Ganz Andere” (o Totalmente Outro). Há um sem número de conceitos de Deus. Porém, o que mais soube ao meu coração foi este: “O bem que sentimos intimamente, que intuímos e que nos faz sofrer toda vez que nos afastamos dele”. É de uma jovem filósofa: Catarina Rochamonte.
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
O intelectual Luciano Agra está humilhando a brutalidade laranja-girassol
Quem tem acompanhado o embate entre o prefeito Agra e seus ex-companheiros laranja-girassóis não pode ter deixado de rir com as seguidas tundas que o intelectual Agra aplica nos seus desafetos socialistas. Estes têm sido grosseiros e vulgares a mais não poder - a começar pelo rei-na-barriga Ricardo Coutinho, que ameaçou dar "um tapa na bunda" do prefeito.
A essas e outras, Agra tem respondido com inteligência, sutileza e corrosiva ironia. Sempre citando pensadores mais ou menos famosos. Dia desses, reagindo a agressões bem baixas, citou, mais uma vez, Nietzsche: "Toda vez que me elevo sou mordido por um cachorro...".
A mais recente sutileza de Agra ocorreu em resposta a uma brutalidade do presidente municipal do PSB, Ronaldo Barbosa, que havia chamado 78 dissidentes do PSB de "banda podre".
Desta vez, Agra citou o físico Niels Bohr:
"Toda verdade para ser verdadeira, o oposto também tem de ser verdade".
A força das citações de Agra está no fato de que elas são pertinentes, bem escolhidas e bem emolduradas. Só depois de ter amarrado a presa por meio de um discurso esclarecedor, o orador desfecha a ferina citação.
Muitas vezes, esses "discursos" são feitos via twitter. Falas bem curtinhas; nem por isso menos eficientes.
Consta que, para detonar o prefeito seu correligionário, natural candidato à reeleição, Ricardo Coutinho argumentou com a inabilidade retórica de Agra; enquanto que Estela haveria de "engolir Cícero e Zé Maranhão".
Por enquanto, Estela tem engolido apenas imensa frustração, amargando o quarto lugar.
Retoricamente, quem está engolindo os ex-companheiros socialistas-laranjas é o intelectual Luciano Agra.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
O triste voto do ministro-defensor Ricardo Lewandowski
O juiz ministro-revisor fez uma defesa apaixonada, vibrante e comovida; como não lhe competia. Escancaradamente, com gosto e desenvoltura, assumiu-se como ministro-defensor.
Em post anterior, elogiei o ministro Lewandowski e até o comparei a São Tomás Becket. Coitado de mim, o santo-mártir de Inglaterra jamais haverá de me perdoar.
Em post anterior ao anterior disse que absolvições no caso do mensalão seriam bem-vindas, desde que sustentadas em argumentos lógicos e consequentes. O voto em questão, por sobre ser ilógico e inconsequente, iniciou por ser iníquo. Vejam:
Na quarta-feira, seguindo a linha do ministro-relator Joaquim Barbosa, o então ministro-revisor Ricardo Lewandowski, com igual lógica e consequência, completou o desmonte do castelo de pedras falsas coladas com cuspe erguido pela defesa de Henrique Pizzolato. No caso símile de João Paulo Cunha, na visão transmutadora do ministro-defensor, o que era pedra falsa virou diamante lapidado, o que era cuspe virou concreto armado.
No cumprimento da sua tarefa de defensor, o ministro Lewandowski alongou-se. Não querendo me alongar, cito apenas uma das tantas similitudes:
Henrique Pizzolato mandou uma pessoa de confiança pegar dinheiro no Banco Rural, dinheiro que estava camuflado, pois, oficialmente, destinava-se à SMP&B; a pessoa de confiança assinou um recibo de uso restrito, que não seria comunicado ao COAF; a mutreta fora arquitetada pelo mutreteiro Marcos Valério.
João Paulo Cunha mandou uma pessoa de confiança pegar dinheiro no Banco Rural, dinheiro que estava camuflado, pois, oficialmente, destinava-se à SMP&P; a pessoa de confiança assinou um recibo de uso restrito, que não seria comunicado ao COAF; a mutreta fora arquitetada pelo mutreteiro Marcos Valério.
Daí em diante, não é tudo igual; é tudo quase igual. Mas as conclusões do ministro-defensor foram abissalmente diferentes daquelas do ministro-revisor.
Henrique Pizzolato é um peixe pequeno do PT. Sindicalista de pouca visibilidade, sem mandato político, Pizzolato foi nomeado, no primeiro mandato presidencial de Lula da Silva, para um cargo estratégico (Direção de Marketing) do Banco do Brasil. Hoje, nem se sabe onde anda (eu, pelo menos, não sei).
João Paulo Cunha é um peixe graúdo do PT, aquilo que Lula da Silva chama de "alto companheiro". Foi Presidente da Câmara Federal, o segundo na linha de sucessão do Presidente da República. Hoje é deputado federal e candidato a prefeito de Osasco/SP.
Pelo visto, o voto do ministro-revisor, na quarta-feira, foi um engôdo para distração dos incautos, uma preparação de terreno para a espetacular aparição de um novo personagem: o ministro-defensor. Foi um teatro bem montado, que iludiu observadores mais espertos do que eu (que eu saiba, só quem não caiu no conto do juiz foi o blogueiro Reinaldo Azevedo).
A prosseguir na sua linha de iniquidade, tratando os grandes com desvelo e os pequenos com rigor, o Lewandowski levará alegria a uns e trará tristeza a outros. Vão-se os bagres, ficam os tubarões.
Triste voto.
Ricardo Lewandowski, amigo de Lula e família, amicíssimo de Dona Marisa, que, quando Primeira-Dama, o indicou ao Presidente, que, por sua vez, o indicou ao Senado para compor o Supremo Tribuna Federal; o Lewandowski é um exemplo de gratidão.
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Tal como o Arcebispo Becket, o Ministro Lewandowski foi um ingrato
Thomas Becket, o maior dos ingratos, como registrado no post anterior, morreu pelas mãos dos fanáticos do rei para se manter fiel aos deveres do cargo. Ganhou a canonização.
Não será o caso que os ministros do STF, por honrarem o cargo, venham a ser martirizado por fanáticos, nem que ganhem os galardões da santidade. Todavia, haverão de ganhar o respeito público, o reconhecimento da Nação. Estará de bom tamanho.
Não pretendo que a isenção dos ministros só estará patente ser houver condenações. As absolvições serão bem-vindas, desde que fundamentadas em votos consistentes, lógicos, convincentes; como, por exemplo, está ocorrendo em relação ao réu Luís Gushiken.
Era de se esperar aquele vendaval de argumentos furados (exemplo: Pizzolato não sabia o que tinha no pacote mandado buscar por ele e recebido por ele no apartamento dele; entregou o pacote a uma pessoa do PT que não conhecia e que não se identificou; etc e tal e mais bobagens) da defesa, que tem a obrigação de defender até o indefensável; mas seria (e será) insuportável no voto de um juiz.
Thomas Becket e o rei Henrique II - Joaquim Barbosa e o presidente Lula
Ocorre que o ministro foi indicado para o cargo pelo ex-presidente Lula.
Como se sabe, o ex-presidente tem o máximo interesse na absolvição dos seus protegidos mensaleiros. Chegou mesmo, o ex, à tentativa de chantagem sobre um membro da Suprema Corte.
Com efeito, o ministro Barbosa está pegando pesado com os réus da Ação Penal 470 (nome técnico do mensalão). Mas não por alguma predisposição, mas porque as provas dos delitos denunciados são robustas. Não fosse assim, se provas não houvessem, se fossem os réus inocentes, a predisposição do ministro se revelaria em um voto fraco, falho, ilógico e inconsequente. Mas, pelo contrário, vem se revelando um voto robusto, exato, lógico e consequente.
Contudo, onde fica o dever de gratidão do ministro Joaquim Barbosa para com aquele que o indicou (indicação que é quase nomeação, pois, no Brasil, muito dificilmente o Senado rejeita uma indicação presidencial)?
Não fica, não cabe, não cumpre. Uma vez no cargo, o ministro deve honrar o cargo.
Isso tem história. A mais célebre reporta ao século XII, e está referida no título. Foi transformada em romance, teatro e cinema. "Becket, o favorito do rei", filme de 1964 dirigido por Peter Grenville e com soberbas interpretações de Richard Burton (Becket) e Peter O'Toole (Henrique II), foi sucesso de público e crítica, premiado pelas Academias. Filme baseado em peça também famosa de Jean Anouilh.
Vai aqui um resumo da história, para os preguiçosos:
Henrique II Plantageneta, rei da Inglaterra de 1153 a 1189, tinha como melhor amigo Thomas Becket, a quem cumulava de favores. Henrique era um grande governante, deveras compenetrado dos seus deveres reais, o que não o impedia de ser um mulherengo incontrolável e farrista contumaz. Becket, que ajudava o amigo e protetor nos ofícios de governo, também o acompanhava nas farras costumeiras. Eram, como se diz, unha e carne. Eis que o rei vivia em litígio com a Igreja Católica, poderosíssima na Inglaterra e em todos os reinos da cristandade. No reino de Henrique II, o mais importante cargo eclesiástico era o de Arcebispo de Cantuária, Primaz da Inglaterra. O hábil Henrique aproveitou a morte do Arcebispo Teobaldo, seu desafeto, para colocar no seu lugar alguém que lhe fosse absolutamente fiel. O amigo escolhido foi, justamente, Thomas Becket, que, além de amigo fiel, provinha da Igreja e era homem culto e refinado (os nobres de Henrique eram, quase todos, analfabetos e brutos). Pois ocorreu que Thomas Becket, uma vez no cargo, honrou o cargo. O novo Arcebispo de Cantuária mostrou-se exemplo de devoção e defensor intrépido das prerrogativas da Igreja. Cumpriu integralmente aquilo que considerou ser seu dever, sem fazer qualquer concessão a seu antigo amigo e protetor, o rei. Em consequência, o rei ordenou o assassinato do Arcebispo. Ou assim entenderam alguns daqueles nobres ignorantes e brutais que faziam a corte de Henrique. Consta que o rei Plantageneta, ao sofrer mais um revés nos seus confrontos com o Arcebispo de Cantuária, teria dito, na presença dos seus nobres: "Não haverá quem me livre deste padre Turbulento?". Quatro dos mais brutais daquele nobres cavaleiros (verdadeiras cavalgaduras) levaram o desabafo do rei ao pé da letra, seguiram até a Catedral de Cantuária e assassinaram o Arcebispo ao pé do altar da capela-mór. A gente inglesa, maciçamente, responsabilizou o rei e começou a cultuar o Arcebispo assassinado como mártir cristão. O clamor foi tão forte que o poderoso rei Plantageneta, sentindo seu trono vacilar, peregrinou até Cantuária para fazer-se flagelar ao pé do túmulo do Arcebispo. Pouco tempo depois da humilhação real, Thomas Becket, apenas três anos depois do seu martírio, foi canonizado: virou São Tomás Becket. Está no Céu, em beatitude; enquanto Henrique Plantageneta queima na grelha do capeta, lá na sucursal infernal do purgatório (direto para o inferno, Henrique não terá ido, porque seu reino, em vários aspectos, foi benéfico).
E aí, gostaram da história? E a comparação, é procedente? Eu mesmo lhe vejo uma extensa falta: Joaquim Barbosa foi indicado ministro do STF pelo então presidente Lula, mas não eram amigos, sequer se conheciam pessoalmente. A comparação melhor se aplicaria aos ministros Ricardo Lewandowski, indicado por Lula por recomendação da Primeira-Dama Dona Marisa, amicíssima do ministro e da família do ministro. Ainda mais pertinente será a comparação com Dias Toffoli, amigo fiel e protegido do então presidente Lula, quando da indicação. Ocorre que o que pretendi ressaltar aqui foi a já referida obviedade, esquecida pelo fanatismo político-partidário: cumpre ao funcionário, em quaisquer circunstâncias, honrar o cargo. Gratidão não é figura de direito publico. Também, o ministro em evidência até hoje (22/08) de manhã, quando comecei a redigir esse texto, era o ministro Joaquim Barbosa. Agora à tarde, começou a ser focado o ministro Lewandowski, que iniciou seu voto.
Pois, de hoje de noite para amanhã de manhã, farei a comparação entre o amigo de Henrique Plantageneta e o amigo de Dona Marisa. Na sequência e oportunidade, farei a comparação mais pertinente: entre o amigo do coração de Henrique II e o amigo do peito do presidente Lula.
domingo, 19 de agosto de 2012
"Por que Cássio não rompe logo?" (com Ricardo), pergunta Flávio Lúcio. E por que todos os que têm vergonha na cara não rompem logo com o tirano?, pergunto eu.
O conselho é bom, mas foi formulado nos termos mais agressivos. Cássio merece? Vejam lá. Começa assim:
"Caro Rubens, considero um cinismo sem tamanho essas estocadas no governador Ricardo Coutinho".
As estocadas referidas são aquelas twitadas de Cássio (uma reação fraquinha, aliás) com que o ex-governador respondeu à propaganda enganosa do governador sobre aquele bilhão para João Pessoa. Propaganda cara, na TV. Cara e suspeita. Pelo menos, dela suspeitou Nonato Bandeira, ex-secretário de Comunicação do rei-na-barriga.
Vão conferir, no artigo de Rubens, a mensagem de Flávio. Tem outras expressões duras, mas acho que, para o senador Cássio Cunha Lima, ser chamado de "cínico sem tamanho" já estará de bom tamanho.
Seja como for, Flávio Lúcio, que também é professor, faz uma indagação deveras pertinente: "Por que Cássio não rompe logo?".
E acrescenta: "Rompa e vá para a oposição".
Pois é. Por que não?
O governador da Paraíba, dono do PSB no estado, trata seus aliados com desprezo, desdém e patadas. Não é decente que um senador da República se deixe tratar de tal maneira. Com efeito, já está passando da hora do rompimento.
Lembrem-se que o prefeito Luciano Agra (ex-PSB) passou por um calvário de humilhações antes de romper com o tirano girassol. Agra aguentou o que pôde. E pôde muito. Mas não pôde tudo: "tapa na bunda", aí já é demais.
Bem oportuno o conselho de Flávio Lúcio ao, hoje timorato, senador Cássio Cunha Lima. Lembrem-se que o menino campinense já foi cantado por sua afoiteza e bravura, e cognominado "Galo de Campina". Flávio como que o convida a retomar os brios.
O excelente conselho do preclaro Flávio Lúcio, eu o estendo a todas as pessoas que têm vergonha na cara. Têm a vergonha, mas convivem com o tirano. Terão seus motivos, e não os critico; apenas me compadeço. Conviver com tiranos é um horror. Assim registra a história; e também a ficção histórica.
Felizmente, aumenta dia a dia o número dos que se livram do rei-na-barriga Ricardo. Antes do prefeito Luciano Agra, já alguns girassóis se tinham rebelado. Depois de Agra, a rebelião continua. O reino girassol está caindo aos pedaços. Tem uma batalha decisiva a travar no início de outubro. Quando perder essa batalha, pois é certo que perderá; então, tratar-se-á apenas de contar os dias.
Os tiranos, geralmente, findam os dias em total abandono; por vezes, os consola a fidelidade última e extremada de algum fanático guardião. Tragédias assim foram contadas por Shakespeare. Tem uma cujo protagonista, cruel e implacável, chama-se Ricardo. Presta-se a comparações.
No próximo capítulo.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
"O Nome da Rosa" e o Nome do Mensalão
O problema remonta a Platão. O Platonismo pretende que todas as coisas do mundo, singulares e imperfeitas, sejam cópias de uma realidade perfeita que existe no Mundo das Ideias. Por exemplo: cada rosa singular - precária e perecível - seria cópia da Rosa perfeita e eterna que existe no Mundo das Ideias. Da mesma forma, cada mulher, homem, bicho, planta ou objeto inanimado; tudo que existe no mundo ilusório em que vivemos seria mera sombra, cópia, projeção da respectiva matriz do Mundo das Ideias. Porém estas realidades ideais e eternas não são sensíveis, não têm a ver com o mundo empírico, elas são apenas inteligíveis.
Essas matrizes únicas de infinidades de singulares passaram, na filosofia medieval, a ser denominadas de "universais". A Rosa é um universal. A rosa que desabrochou hoje no seu jardim, caro leitor e cara leitora, rosa que vai murchar, despetalar e fenecer, é um singular, cópia imperfeita daquela Rosa perfeita e eterna do Mundo das Ideias.
Essa Teoria das Ideias de Platão teve formidável influência na história da filosofia, com tantos adeptos quanto desafetos.
Na Baixa Idade Média essa questão ocupou o centro do debate intelectual, dividindo os filósofos em dois campos: "realistas" e "nominalistas". Os "realistas" eram platônicos que afirmavam a realidade dos universais. Os "nominalistas" consideravam que os universais não tinham existência própria, seriam apenas "nomes", meramente emissões vocálicas - flatus voces -, e que só os singulares a que esses nomes se referiam tinham existência própria.
Considera-se que o grande Pedro Abelardo deu a melhor resposta para a questão. Muito resumidamente: os universais não teriam realidade autônoma lá no Hiperurânio (região do mundo das Ideias), mas também não seriam apenas flatus voces, pelo contrário, seriam importantes instrumentos/mecanismos do pensamento que agrupam na compreensão as infinidade dos singulares, que não podem ser compreendidos um a um. Esse mecanismo de percepção, apreensão e compreensão do mundo empírico constitui b-a-bá do aprendizado. São os conceitos.
Devemos entender que conceitos são representações abstratas unificadoras. Sem tais abstrações, o discurso racional seria impossível, dada a infinidade dos referentes singulares.
E o que tem essa conversa toda a ver com o "Nome do Mensalão"? Tem que os defensores dos mensaleiros vêem de dar imensa contribuição à filosofia e à linguística, avançando a mais ousada das teorias: a de que as abstrações têm realidade física, corporal.
Vejam: eles, defensores dos mensaleiros, afirmam que o mensalão nunca existiu, e desafiam quem diz o contrário a provar a existência do mensalão; não demonstrando o mensalão, mas mostrando o mensalão.
O Ministério Público Federal demonstrou exaustivamente a existência do mensalão. Todo mundo que acompanhou o escândalo constatou a enormidade das falcatruas. Alguns réus reconhecem algumas dessas falcatruas, como o Caixa 2. Mas, respondem os defensores dos mensaleiros, nada disso é mensalão. Alguns mensaleiros receberam um grande bolada de uma vez só. Outros receberam mais de uma vez por mês; mas não está provado que alguém tenha recebido, rigorosamente, mês a mês. Então, cadê o mensalão?
Eles querem ver o mensalão, tocar o mensalão, cheirar o mensalão; para poderem acreditar que existiu.
O mensalão está para os mensaleiros como o corpo da vítima de um crime de assassinato está para o assassino. Se o corpo não aparecer, o assassino se safa.
Os mensaleiros e seus defensores não aceitam nada menos que o corpo do mensalão.
Se os ministros do STF aceitarem a tese, os mensaleiros estarão salvos.
Eis a questão: o mensalão não é uma pessoa ou um bicho; nem sequer um objeto. O mensalão é meramente um conceito, um "nome". No caso, o nome designativo de um escândalo de corrupção, com variados entes envolvidos em variadas circunstâncias.
Os mensaleiros podem estar sossegados, o corpo do mensalão não vai aparecer.
Porém, ai porém, os defensores dos mensaleiros querem obter uma segunda vitória: fazer desaparecer o nome. Um advogado do PT quer restabelecer a censura dos tempos da ditadura para proibir a imprensa de usar a expressão "mensalão". É uma idéia de jerico. Acho que não prospera, mas mesmo que prosperasse, continuaria a ser uma idéia de jerico; pois o termo seria imediatamente substituído por outro, que logo se tornaria pejorativo, porque a pejoração não está no nome, está naquilo que o nome designa.
O advogado do PT exige que no lugar de "mensalão" seja usada a expressão "Ação Penal 470".
Vejam um primeiro resultado da referida idéia de jerico: o humorista Sponhoz (o melhor do Brasil) já tratou de fazer uma charge em que os três irmãos metralhas aparecem com suas características roupas de presidiário com números estampados, respectivamente: 470-171; 470-172 e 470-173.
Vou parar por aqui. Vou reler uns trechos de "O Nome da Rosa", a ver se me chega inspiração para escrever o terceiro capítulo desta saga mensalônica. Quer dizer, o assunto já tenho na cabeça, só falta o nome; que o queria bem sugestivo.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
"Ô, mulé, dá uma pena!": repito a expressão usada por Cláudia Carvalho para deplorar que gente decente se esforce para defender pilantras mensaleiros
Dá-se o caso que dois jornalista a quem muito prezo pela dignidade e caráter estejam forçando suas reconhecidas inteligências para defender pilantras mensaleiros da quadrilha do mensalão.
Walter Santos e Rubens Nóbrega poderiam continuar devotados ao PT, ao Lula e à causa sem os apelos pueris a que são forçados por tentarem demonstrar o indemonstrável e sustentar o insustentável.
Vejam: um e outro, para defender mensaleiros, insinuam a força maléfica da "grande mídia", que teria urdido uma farsa para prejudicar uma gente brava e idealista.
Deus do céu!, Rubens escreve, desde há muito, com liberdade e coragem, na... grande mídia. No Jornal Correio da Paraíba (Sistema Correio) fez história. De lá saiu porque não se dobrou às imposições de um governador tirano. Hoje escreve no jornal de um outro grande sistema de comunicação, o Sistema Globo, o maior do Brasil.
Walter Santos não apenas escreve em um portal e em uma revista da grande mídia, ele é fundador, dono e presidente do sistema de comunicação pelo qual se comunica; um sistema que já se coloca entre os mais fortes de toda a região Nordeste, o WSCOM (sendo o W de Walter e o S de Santos).
É possível que Walter e Rubens, ao se referirem à grande mídia, visem apenas às matrizes da grande mídia sulista, e não a filiais ou órgãos da mídia paraibana e nordestina. Essa grande mídia será facilmente identificada: TV Globo, O Globo (jornal impresso e online), Veja (revista impressa e online) Folha de São Paulo (jornal impresso e online), O Estadão (jornal impresso e online).
Vamos considerar essa grande mídia, não sem antes expor lição já resultante da observação da atuação dos referidos jornalistas na imprensa local: no Brasil, a imprensa (mídia em geral) é livre e de alta qualidade não porque cada órgão seja em si mesmo exemplo das virtudes que se requer em tão melindroso ofício (honestidade, imparcialidade etc); é livre e de qualidade porque é plural e competitiva.
Ao ponto: A Rede Globo pode hoje não gostar de Lula (sei lá; acho que a Globo está gostando da Dilma), mas já gostou. Tanto que fez tudo para derrubar Brizola e colocar Lula no segundo turno das eleições presidenciais de 1989. Dizem que, depois, deu uma mãozinha ao Collor de Mello. Pode ter sido. Porém, a Globo não mais reina sozinha. Tanto não reina que a Record acaba de exibir com exclusividade o maior evento do Planeta, as Olimpíadas de Londres. Todos sabem que o dono da Record é o bispo Edir Macedo. E sabem de quem o bispo Macedo é aliado? Pois é: do Governo do PT. Talvez o bispo da Universal seja mais devotado ao Governo do que a Nosso Senhor Jesus Cristo.
A Veja, certamente, não gosta do PT; mas o PT já gostou da Veja. Foi no tempo em que a Veja denunciava as "maracutaias" do Governo Collor de Mello, que o PT queria derrubar. Parlamentares petistas subiam à tribuna para esculhambar o Presidente Collor brandido um exemplar da revista como se fora uma espada flamejante. Mas é verdade que a Veja não gosta do PT. Todavia, tem concorrente da Veja que gosta do PT e, especialmente, idolatra Lula da Silva. É o caso, por exemplo, da revista Carta Capital, do mesmo Mino Carta que foi, por muitos anos, editor da Veja. A Carta Capital tem em toda banca de revista. Nenhum petista ou adorador de Lula está proibido de comprar Carta Capital, nem é obrigado a comprar a Veja.
A Folha de São Paulo, pelas barbas do Profeta!, metade da redação da Folha de São Paulo é composta por petistas de carteirinha ou simpatizantes. Um dos seus mais antigos e respeitáveis articulistas, o Jânio de Freitas, tem, aliás, dedicado-se ultimamente à tarefa de provar que o mensalão não existiu e que Zé Dirceu é a reencarnação de Joana D'Arc. Porque, então, lulistas, petistas e lulo-petistas se incomodam com a Folha de São Paulo? Porque eles não querem dominar apenas metade da redação, querem dominar toda a redação, a edição e a direção.
O Jornal O Estado de São Paulo (Estadão) sempre foi um tanto conservador, e, assim, arredio aos partidos de esquerda. Mas tem direito de ser conservador, pois não? Ou os lulos e petistas querem impor, por decreto, que todo órgão da mídia seja progressista?
Tem mais. O Lula, quando presidente, gastou uma nota preta para criar um TV estatal, que continua consumindo os tubos de dinheiro: TV Brasil. Ninguém assiste às coisas lindas e edificantes nela programadas pela inteligência progressista dos petistas, por isso foi apelidada de TV Traço (traço, na medição do Ibope, é a audiência desprezível, próxima de zero). Em compensação, na net, muitos portais e blogs simpáticos a Lula, ao PT e ao Governo do PT são intensamente visitados.
Tem por aí, e faz tempo, uma enormidade de mídia (pequena, média e grande) falando bem de Lula e do PT. Tanto tem que Lula e o PT chegaram ao poder. Nunca antes na história deste país um político foi tão incensado pela mídia quanto o foi Lula. E continua sendo. Porém, como o Brasil é um país democrático, a louvação não é unânime. Essa conversa de "grande mídia" contra o PT e contra Lula faz parte da tentativa de conseguir a unanimidade, de submeter toda a mídia ao controle do Estado petista.
Como se sabe, José Dirceu é, abaixo de Lula, o chefe e ídolo maior do petismo. Uma crítica ao Zé Dirceu equivale, para os petistas, a um ato de lesa-majestade. Portanto, o termo "grande mídia", na boca dos petistas, significa tão somente aquela parte da mídia que ainda não foi subjugada, que não reza pela cartilha do petismo.
Vou parar por aqui, não por ter esgotado o assunto, mas para melhor pensar o segundo capítulo, que se chamará: "O Nome da Rosa e o Nome do Mensalão".