Blog Rocha 100

No princípio, criou Deus os céus e a Terra”. Ótima frase para um Blog que navegará 100 fronteiras: dos céus metafísicos à “rude matéria” terrestre. “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Pois, somos também deuses, e criadores. Podemos, principalmente, criar a nossa própria vida, com autonomia: isto se chama Liberdade. Vida e Liberdade são de Deus. Mas, quem é “Deus”? Devotos hebreus muito antigos, referiam-se a Ele apenas por perífrases de perífrases. Para Anselmo de Bec, Ele é “O Ser do qual não se pode pensar nada maior”. Rudolf Otto, diante da dificuldade de conceituá-Lo, o fez precisamente por essa dificuldade; chamou-O “das Ganz Andere” (o Totalmente Outro). Há um sem número de conceitos de Deus. Porém, o que mais soube ao meu coração foi este: “O bem que sentimos intimamente, que intuímos e que nos faz sofrer toda vez que nos afastamos dele”. É de uma jovem filósofa: Catarina Rochamonte.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

"Pior que estricnina / É o Ricardo Coitim"

Mote, para quem não sabe, é uma parelha de versos proposta para puxar cantoria de viola. Coisa da poesia de cordel. Os cantadores/versejadores se obrigam a terminar suas estrofes com o mote condutor acordado. Como Todo mundo sabe, tudo que é excepcional termina sendo levado por uma poeta-cordelista para uma cantoria ou um folheto. Como o governador paraibano Ricardo Coutinho é excepcionalmente ruim, um primo meu, poeta lá do Brejo, dia desses, na famosa feira de Nova Cruz, no vizinho estado do RN, estando os amigos cabeça-de-jerimum falando mal dos seus políticos, esse meu primo versejou o mote do título, para provar que em matéria de político ruim a Paraíba tem o campeão. Eu estava lá e guardei de memória algumas estrofes. Vejam se o poeta está certo ou exagerou (aliás, a poesia de cordel é sempre exagerada).

Governante incomparável
Em matéria de ser ruim,
Pior que vidro moído,
Que veneno racumim;
Pior que estricnina,
É o Ricardo Coitim.

Perseguiu funcionários,
Sangrando até o fim,
Perseguiu seus companheiros,
Ficando quase sozim;
Pior que estricnina,
É o Ricardo Coitim.

O Povo num güenta mais
De tanta coisa ruim,
Ricardo só se diverte,
Comendo seu lagostim;
Pior que estricnina,
É o Ricardo Coitim.


O primo fez várias outras estrofes, mas não decorei. O nome dele, por inteiro, ele não quer que diga; mas se assina Rochinha das Candongas. 
E vive só disso: de fazer versos, tomar cachaça e raparigar. Como precisa gastar nestas duas últimas atividades, tem de ganhar algum com a primeira.
Aceita fazer versos por encomenda.




segunda-feira, 23 de julho de 2012

A Carta de Glauce Burity e um possível gesto de grandeza da família Cunha Lima

Uma homenagem deve causar regozijo, não aflições. Está prevista para o ex-governador Ronaldo Cunha Lima uma homenagem de aflições. Alguns políticos e jornalistas pretendem denominar o Centro de Convenções de João Pessoa, ora em construção, com o nome do político e poeta recém falecido. Ronaldo Cunha Lima merece homenagens? Merece: como político e como poeta. Mas que não seja essa.
Eis que a família do ex-governador Tarcísio Burity guarda, já de há tempo, justa expectativa em relação a essa homenagem; porquanto o Centro de Convenções é a coroa de um projeto - Projeto Costa do Sol - concebido e iniciado por Tarcísio Burity, ... e abandonado por Ronaldo Cunha Lima.
Que se tire tal homenagem de Burity e se a dê a Ronaldo, é injusto com Burity e deselegante com Ronaldo. Ora, tendo Ronaldo Cunha Lima realizado tantas obras - quer pela competência de administrador quer pela genialidade de poeta -, por que homenageá-lo em uma obra para a qual não concorreu e até menoscabou?

Até agora, o anúncio da possível homenagem a Ronaldo só trouxe discórdia. Alguns comentaristas já reclamam da politização e partidarização da homenagem; mas esses mesmo que reclamam, sutilmente, tomam partido. Eu estou sendo abertamente partidário. No caso, tomo partido em relação à Carta Aberta que a Professora Glauce Burity faz circular, defendendo que o Centro de Convenções receba o nome de Tarcísio Burity: assino embaixo.

É inevitável que a polêmica do presente carregue a memória para as aflições do passado, levando a que se faça comparação entre a injustiça menor de hoje com a injúria maior de ontem. Ronaldo atirou em Burity, tentou matá-lo. Esse ato de insanidade pode ser, de alguma forma, redimido, mas não pode não ter existido - como pretendem alguns admiradores de Ronaldo -, e virá à tona sempre que lhe derem ocasião, como agora, quando uma homenagem a um parece mais uma provocação ao outro.

No passado também estão os gestos: no leito do hospital, convicto da morte, Tarcísio Burity perdoou Ronaldo e pediu aos filhos que não procurassem vingança. Foi um gesto imenso. Talvez pudesse ser hoje correspondido com um gesto de mínima elegância, mas, talvez, de grande efeito: a família Cunha Lima poderia abdicar da homenagem em questão. Certamente, sabe sua família que a grandeza de Ronaldo é de molde a lhe proporcionar futuras homenagens. Ademais, se fizesse isso, a família estaria atendendo à vontade do próprio Ronaldo. Não convivi com Ronaldo, mas muitos dos que conviveram dizem que era um homem bom. Acredito, pois, embora raro, acontece de pessoas boas cometerem atos de tresloucada violência; e aí está a literatura do gênio Dostoiévski que demonstra tal fenômeno.

Espero esse gesto da família Cunha Lima. Arrima-se essa minha esperança na opinião e convicção de um amigo de Ronaldo, e seu bastante admirador, o jornalista Tião Lucena, que, lá no seu Blog campeão de audiência (5 milhões de visitas - ai que inveja tem, o Blog Rocha 100!) afirmou: "Caso pudesse opinar nesse assunto do nome que se quer dar ao Centro de Convenções de João Pessoa, o poeta Ronaldo Cunha Lima declinaria da homenagem em favor do seu ex-desafeto Tarcísio Burity".    

Tarcísio Burity também foi um homem bom. Com ele, se não cheguei a conviver, tive alguma aproximação. A família desse homem bom não merece ser submetida a constrangimento, depois de ter passado por tanto sofrimento.

Não apenas político e administrador, Burity foi ainda um erudito, conhecedor profundo e amante das artes, especialmente da música, tendo chegado a compor belas peças. Eminente professor de Direito, brilhou na Filosofia Jurídica. Porém, de tudo em que foi grande e notável, o mais significativo, a meu sentir, foi aquele gesto de perdão; que não se há de esquecer.

Até como caminho de pacificação, espera-se o gesto da família Cunha Lima, declinando da homenagem em favor de quem mais a merece. Nomeie-se a obra com o nome de quem a idealizou:

CENTRO DE CONVENÇÕES TARCÍSIO DE MIRANDA BURITY

sábado, 21 de julho de 2012

A Estela não sobe

No post anterior, ao analisar a pesquisa TV Master/IP4, considerei que os minguados 11% de intenção de voto da candidata do PSB a prefeita de João Pessoa, em sendo ela, Estela, a candidata do governador, significavam fracasso. Acrescentei que, pela minha percepção, a situação da candidata laranja-girassol era ainda pior. Pois, saiu hoje - 21/07 - a pesquisa Jornal da Paraíba/Ipespe. Se existe pesquisa comprada, comprei essa. Minha percepção foi confirmada: apenas 7 pontinhos percentuais para Estela.
Estela, de batismo, é Estelizabel. Mudaram para "Estela" por motivos de marketing: Estela é "estrela". E tem aquele famoso filme "A Estrela Sobe". Mandaram bem os marqueteiros. Porém,...ai porém, a Estela não subiu. Nem vai subir. Não o suficiente para chegar ao segundo turno.
Pode-se dizer que a Estela caiu, se a pesquisa Ipespe for comparada com apesquisa IP4, mas os especialistas aconselham a não comparar pesquisas de diferentes institutos. Na análise anterior a comparação indevida foi feita - falando-se de subida acelerada de 5% para 11% - por se tratar da primeira pesquisa Master/IP4 nessas eleições. Agora, devemos levar em conta a pesquisa anterior do próprio instituto Ipespe. Então, a Estela subiu: de 5% para 7%. Todavia, um crescimento insignificante, de forma que, para efeitos práticos, Estela pode ser considerada uma estrela fixa.
Não, a Estela não é uma estrela apagada; pelo contrário, tem um certo brilho: uma beleza exótica, desembaraço, ativismo político-social e muita capacidade de diálogo (aliás, "dialogar" é o verbo que a faz viver). Sendo assim, por que raios a estrela não sobe? Por Júpiter!

Todo mundo sabe a resposta: a Estela não sobe porque tem um rabo de foguete puxando ela pra baixo. Um rabo de foguete presunçoso, enfatuado e arrogante; como aquele foguete do conto de Oscar Wilde, "O Notável Foguete". Vão ler. É muito engraçado.    

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Quadro das eleições em Jampa-PB: a mais simples análise

Toda análise política inclui uma certa dosagem de opinião: a minha é alta. Dito isso, faço minha análise do quadro eleitoral em Jampa, capital da Paraíba.

Três candidatos disputam a ida ao segundo turno, todos de oposição ao governador Ricardo Coutinho. A candidata do governador está fora.
Pela última pesquisa (TV Master/IP4), temos: Cícero Lucena (PSDB) em primeiro, com 26%; Zé Maranhão (PMDB) em segundo, com 24%. Ambos em linha de crescimento. Se não fizerem campanhas estúpidas (coisa que Zé Maranhão fez em 2010), não baixarão da casa dos 20 e irão juntos ao segundo turno.
Em terceiro lugar está Luciano Cartaxo (PT), que, em subida acelerada, chegou a 17%. Qualquer vacilo de Ciço ou de Zé, vai ao segundo turno.
Em quarto vem Estela (PSB), a candidata do governador. Também acelerou, mas chegou a...11%. Sendo a candidata do governador, ou ela é ruim ou o governador é ruim. Eu acho que o governador é ruim. Como Estela depende dele, ruirá.

Análise simples, a mais simples. Mas os números são esses. Eu não acredito nem desacredito em pesquisas, apenas levo em conta. Se batem com minha percepção, confio mais; se não batem, confio menos. Pela minha percepção, a situação da candidata do PSB é ainda pior do que mostra a pesquisa Master/IP4. Fiquemos com a pesquisa.

O jornalista Helder Moura, que não gosta do governador Ricardo Coutinho, apesar de chamá-lo "ínclito, preclaro e insigne", avisa para que não subestimem a Estela. Certamente, a primeira estupidez de uma candidatura estúpida será a subestimação de qualquer adversário, mormente do adversário principal. Mas também a superestimação, que parece medo, não convém. Por exemplo: o rei-na-barriga Ricardo disse que Estela ia engolir Zé e Ciço nos debates. Cartaxo tomou as dores e respondeu: "a mim ela não engole". Resposta certa. Estela não engole Cartaxo nem engole ninguém. É uma oradora mediana, debatedora mediana.

Pode haver surpresas? Claro que pode. Aliás, sempre há. Mas elas podem vir do pelotão de trás, comandado por Lourdes Sarmento (PCO), que tem pouco mais de 1%, seguida por Antonio Radical (PSTU) e Renan Palmeira (PSOL), que têm pouco menos de 1%. Eu apostaria em Renan. Acho mais fácil ele ultrapassar Estela do que Estela ir ao segundo turno.  

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Mandela, a Anistia ubuntu e a Anistia brasileira

Antes de tudo, SALVE MANDELA! LONGA VIDA!
Ontem, 18 de julho, Nelson Mandela, o maior estadista vivo do mundo, fez aniversário: 94 anos. Com ele, faz festa a Liberdade.
Como o mundo viu, foi difícil a construção da democracia na África do Sul. Na imensa tarefa que Nelson Mandela comandou, o mais difícil terá sido a reconciliação nacional. Tal só foi possível através da mais ampla e generosa Anistia da história, que ficou conhecida como Anistia ubuntu. 
No Brasil também foi concedida uma Anistia ampla e generosa, que promoveu a Reconciliação Nacional, garantiu a Vida e a Liberdade, abriu o caminho da Redemocratização.
Pois, está em curso uma campanha para invalidar retroativamente a Anistia brasileira. É como se, lá na África do Sul, estivessem em campanha para desfazer a obra construída pelo povo sul-africano sob a liderança do Presidente Mandela.
Não será o caso de que, aqui e agora, fale longamente sobre o tema; porque já o fiz: em livro que está virtualmente disponível no Portal 100 Fronteiras e que será lançado, à moda antiga, pela Editora Sal da Terra (02 de agosto, às 18 horas, em O Sebo Cultural, João Pessoa/PB).


segunda-feira, 16 de julho de 2012

O corajoso artigo de Gelza Rocha, a perseguição religiosa do Estado laico e as dificuldades dos anticristos

Um excelente artigo de Gelza Rocha intitulado "Estado Laico. E Daí?", publicado em sua coluna aqui no Portal 100 Fronteiras, leva-me a retomar a questão do Estado laico e perseguição religiosa. O corajoso e desafiador artigo de Gelza trata do autoritarismo laranja-girassol, especificamente do veto do governador Ricardo Coutinho à celebração de Missas e outros cultos religiosos em solenidades do Governo. Eu enfocarei a questão em âmbito nacional.

 Tem o Estado laico, que é uma coisa boa. E tem a perseguição religiosa promovida em nome do Estado laico, que é uma desgraça. No Estado laico, nenhuma religião em particular pode prevalecer sobre o interesse público. Mas vejam, esse Estado laico nasceu junto com a liberdade de religião; esta e aquele são produtos da mesma generosa fonte iluminista. Perseguição religiosa em nome do Estado laico ocorreu, por exemplo, na Rússia stalinista e na Alemanha nazista. Isso ocorre, ainda hoje, na China Continental, onde a ditadura do Partido Comunista persegue, prende, tortura e mata adeptos da doutrina Falun Gong. Essa mesma ditadura, no Tibete, persegue a religião budista e esmaga a nação.
É verdade que a religião católica, "nos antigamentes", foi muito perseguidora. Hoje não é mais. Pelo contrário, católicos (e cristãos de várias outras igrejas e denominações) têm sido duramente perseguidos em várias partes do mundo. O termo "perseguição religiosa" refere-se, usualmente, a perseguição de uma religião sobre outras ou sobre seus dissidentes. Porém, uma perseguição feita sobre qualquer religião em nome do Estado laico será também perseguição religiosa. O Estado laico é bom, a perseguição é uma desgraça, quer tenha origem laica ou religiosa.

A desgraçada perseguição religiosa em nome do Estado laico está chegando ao Brasil. Em curso, uma campanha cretina para arrancar dos locais públicos todo e qualquer símbolo religioso. Como o Brasil é um país de tradição cristã e de ampla maioria cristã, tal campanha se torna, objetivamente, uma campanha anticristã.  Os anticristos obtiveram já uma importante vitória no Rio Grande do Sul, onde um tribunal, por decisão interna-corporis, arrancou o crucifixo que estava na sua parede havia bem 100 anos.

Esse desejo de faxinar símbolos religiosos não é de hoje, foi, inclusive, embutido, durante o segundo governo Lula, no chamado PNDH3 por petistas totalitários e a turma do "politicamente correto"; juntamente com o restabelecimento da censura dos tempos da ditadura. A peça não vingou porque a reação foi grande. Tal reação, inclusive, levou o Presidente Lula a dizer que tinha assinado a porcaria por engano, sem ler.
Mas os anticristos não se deram por vencidos, a campanha contra Cristo e a favor da censura continuou, sempre por formas sinuosas.

Se forem vitoriosos, os cretinos totalitários politicamente corretos terão um trabalho danado, tanto para censurar quanto para levar a cabo a tarefa de demolição dos símbolos cristãos.
O Brasil tem uma tradição cristã - principalmente católica - secular, desde que Pedro Álvares Cabral aqui aportou e o Padre Manuel da Nóbrega rezou uma Santa Missa. Tem, por esse Brasil afora, em locais públicos, símbolos cristãos que não acabam mais.
Arrancar crucifixos das paredes até que será fácil. Mas, demolir capelinhas em hospitais; isso será feito sem receber reação?
E as tantas estátuas de Frei Damião que tem em muitas cidades da Paraíba, inclusive uma bem grandona em Guarabira; vão ser derrubadas sem que ninguém reclame?
Aqui na capital, ao lado da catedral, tem uma linda imagem de Nossa Senhora. A catedral, eu acho que fica, mas a Santa Virgem Maria terá de ser expulsa dos olhos públicos (talvez se permita que seja recolhida ao ambiente interior da igreja, evitando-se a injúria das marteladas).
Na vizinha cidade de Santa Rita, o prefeito Marcus Odilon mandou erguer uma grande estátua à doce santa que dá nome à cidade e, segundo os fiéis, a protege. Quando os anticristos forem derrubar a Santa Padroeira, os fiéis santarritenses não irão protestar?
No vizinho estado do Rio Grande do Norte, a mesma Santa Rita de Cássia protege a cidade de Santa Cruz. Lá, o ex-prefeito Tomba mandou erguer uma estátua  maior do que a da cidade de Santa Rita-Pb; e, dizem, ainda maior que a do Cristo Redentor. Ainda não vi, mas vou lá para poder acreditar. Vou correndo, antes que os anticristos a derrubem.

Seguramente, os demolidores de símbolos vão correr certo perigo quando forem mexer com São Jorge, santo protetor dos bicheiros, uma turma barra pesada.

Também, quando os anticristos forem dinamitar, lá em Juazeiro do Ceará, a estátua do Padre Cícero Romão Batista, o Padim Ciço da devoção milhões de sertanejos, romeiros, jagunços e cangaceiros; aí a coisa pode feder.

Porém, o maior desafio dos anticristos será a implosão do Cristo Redentor, lá no Rio de Janeiro; já pela popularidade do monumento, já pela engenharia requerida. Será uma implosão de repercussão internacional, provavelmente adversa, e muito adversa. Todavia, tarefa imprescindível aos decretos da perseguição laica, por ser o Cristo Redentor o mais famoso símbolo cristão do Brasil; incorreta e ofensivamente erguido em lugar público, e super público, porque de toda a cidade se vê o Cristo. E quem vai chegando de avião já vê de longe.

O Cristo Redentor sempre me deslumbrou; nunca imaginara, ignorante que sou, que fosse um monumento politicamente incorreto. Tem de ser derrubado. Para realizar a contento a dificultosa tarefa, os totalitários corretos do Brasil poderão contar com o know-how dos camaradas talibãs, que, lá no Afeganistão, mandaram pelos ares várias estátuas de Buda.



sexta-feira, 13 de julho de 2012

WJ Solha e o Marco do "Marco do Mundo"

W. J. Solha é um gênio. Escrevi isso mais de uma vez e ele não gostou. Que é que posso fazer?
Faz tempo - eu já considerava o romance Israel Rêmora uma obra-prima, mas nem sabia que Solha era pintor -, estando a perambular pela Reitoria da UFPB, deparei-me com uma exposição de quadros de Solha retratando personagens de Shakespeare: em se tratando da arte da pintura, foi o maior impacto artístico da minha vida. Recentemente, Solha publicou no excelente ELTHEATRO.COM uma longa série de ensaios intitulados "Breves e Ilustradíssimos" (ou "Brevíssimos e Ilustrados", uma coisa assim); nem todos breves, mas todos geniais. Ensaios artístico-filosóficos de espantosa erudição, sem similar no Brasil.
Genialidade na Paraíba, aliás, não é coisa rara; e Solha é paraibano, de Pombal, embora tenha nascido em São Paulo.
Admirador e fã, tenho, não obstante, implicado com uma determinada intenção filosófico-literária de W. J. Solha: a desconstrução do cristianismo. Tal implicância se explica facilmente pelo fato de ser eu um cristão devoto e fervoroso. Porém, o que é difícil de explicar é o seguinte: apesar de pretender desconstruir o cristianismo, a maior e melhor parte da obra do angustiado gênio de Pombal é repassada, ou transpassada, por genuíno espírito cristão; se não a fé e a esperança, pelo menos a caridade.

Parêntese: embora a angústia seja tema recorrente na sua obra (daí o epíteto acima referido), Solha não é, de fato, um angustiado. Também não é doido. Esse, aliás, é o único possível motivo para se desconfiar da genialidade de Solha, porquanto os gênios, de ordinário, são abilolados e sofrem horrores com a chamada "angústia existencial".

Todavia, embora sereno, equilibrado, ponderado e lógico, o Anticristo de Pombal teve lá, um dia, sua agonia. E recebeu a visita de, vejam só...: Jesus Cristo; em pessoa.
Pior do que Tomé, um teimoso rude, o sofisticado intelectual marxista não acreditou no que seus olhos viram.
Isso faz tempo. Voltemos aos dias de hoje.

Acabei de ler, e reler, o mais novo livro de Solha, um longo poema intitulado Marco do Mundo. Esplêndido, mas é preciso alguma erudição para entendê-lo. Eu fiz o que pude.
Já de início, Solha estabelece a grandeza do "Marco do Mundo" citando os maiores poetas-cordelistas do Mundo: João Martins de Athayde e Leandro Gomes de Barros.
Diz Solha: 


"No Marco do Meio do Mundo, de 1915, Athayde concebe uma torre de cujo cume se avista


São Paulo e Rio de Janeiro
a Italia e Allemanha
Suissa, França e Hespanha
Portugal sendo o primeiro.


Leandro Gomes de Barros, em Como Derribei o Marco do Meio do Mundo, diz, lá pelas tantas:


A pedra que forma o arco
Tem tres léguas de grossura
Entrou na areia do mar
Dois mil metros de fundura
E da flor d'água p'ra cima
Tem vinte léguas de altura."

Aí, o poeta de Pombal inicia seu próprio poema com uma elegante declaração de modéstia que abre um oceano de erudição e genialidade:

"Abre-se o abismo de pedra e susto
e,
de cristal e prata,
duzentas e setenta cataratas,
como as de Foz de Iguaçu, na Garganta do Diabo,
cavam, sem problema, a fundação do poema,
com grande largura,


...mas sem descer cem metros no chão da literatura".

Certamente, não vou transcrever o poema inteiro. Quero apenas dar a ideia, o clima, a grandeza do Marco do Mundo que Solha pretende construir, ou descobrir. Para, enfim, chegar ao ponto que mais me interessa.

Pelo que entendi (já disse que o poema é erudito e complicado), o poeta descreve a construção civilizatória do Mundo e põe como Marco do Mundo, sabem quem? Pois é..., Jesus Cristo.

Lá está, pelo meio do livro, mais claramente da página 43 à página 51, a Paixão do Cordeiro de Deus.

Como na página 45:

Aí,
os envolvidos na construção do Marco vêm, fascinados
de todos os lados,
ver a Paixão,
que chega ao vivo,
[...]

Ou na página 49, continuando na 50:

Aí,
a mãe não aguenta o sufoco,
a cena recua,
sente-se um...oco,
a Nau dos insensatos passa - de surpresa - ante ela,
velas acesas,
e um rio flui
ao sol,
cheio de lantejoulas,
e o mar
quase ar,
sob o céu,
quase véu,
tem um pássaro que se fecha em flecha de mergulho,
em julho.

Lá para o fim tem uma referência ao "Natal do Sol Invicto" e o poeta diz que o "Sol é a Luz do Mundo".
Bem, o "Sol Invicto" foi um deus para um Anticristo mais antigo, Juliano Apóstata, Imperador de Roma que, no séc IV, tentou extinguir o cristianismo para fazer ressurgir os deuses olímpicos.
No magnífico romance A Morte dos Deuses (de Dmitri Merejkowski, um gênio russo da estirpe de Dostoiévski), o sacerdote pagão Máximo diz ao Imperador que ele, Imperador, não conseguirá destruir o cristianismo porque tornara-se piedoso; como um cristão.

W. J. Solha construiu uma imensa obra artística, literária e filosófica; mas esta obra, malgrado seu autor, jamais constituiu qualquer ameaça ao cristianismo. No caso deste Marco do Mundo, quem não estiver bem avisado do ateísmo de Solha, poderá até pensar que o poeta tem uma certa fascinação pelo Cristo.